Mostrando postagens com marcador ceticismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ceticismo. Mostrar todas as postagens

10 de setembro de 2012

Dez comportamentos estranhos ou incômodos das pessoas nas redes sociais


Sei reconhecer os aspectos positivos das redes sociais virtuais, como a possibilidade de troca de informações e ideias, mas o leitor, caso seja frequentador de alguma(s) delas, há de concordar que alguns membros demonstram comportamentos, no mínimo, estranhos. Para não pegar muito pesado, podemos dizer que, enquanto percorremos as postagens feitas pelas pessoas com as quais nos relacionamos (virtualmente, na maioria das vezes), sugeridas pelo algoritmo interno da rede social, em busca de algum material interessante, acabamos nos deparando com conteúdos um tanto incômodos. É claro que tudo isso é muito subjetivo: aquilo que incomoda gregos pode ser de grande valia para troianos.


Mesmo assim, resolvi fazer uma lista dos dez tipos de comportamento que mais me incomodam ou que, de algum modo, apenas revelam alguma questão mal resolvida do autor, não agregando nenhum valor à experiência de leitura das informações compartilhadas. Não falo daquilo que vai contra minhas opiniões, pois não me chateio por alguém estar defendendo uma visão diferente da minha, desde que tal defesa seja devidamente fundamentada. Considero o debate, inclusive, uma das melhores possibilidades de utilização de tais ferramentas. Também não me refiro ao conteúdo aparentemente banal, como as piadas e brincadeiras, nem mesmo às piadas ruins. Diversão é importante e é um dos motivos que me levam às redes. Afinal, não existe nenhuma determinação para que os assuntos tratados sejam sempre sérios, e nem para o contrário.

Conversas descontraídas ou mais sérias entre amigos ou conhecidos também não geram nenhum incômodo.

Enfim, esta lista será menos sobre os assuntos abordados e as opiniões de seus autores, e mais sobre o tratamento dado a eles. Pretendo elencar apenas o tipo de comportamento que não contribui ou até atrapalha aquela que considero a principal utilidade dessas redes, a qual já mencionei algumas linhas acima: a possibilidade de troca de informações e ideias, incluindo aquelas voltadas exclusivamente ao entretenimento.

10. Censura temática

O décimo item, o primeiro na ordem de leitura, será este, para deixar bem claro que o intuito dessa lista não é defender nenhum tipo de censura. Todo mundo deve ter o direito de publicar o que bem entender. O curioso, no entanto, é que algumas postagens tentam coibir o tratamento de certos assuntos.

“Se postar alguma coisa sobre o BBeBeu e Deu 26 (o ‘reality show’ do momento daqui a alguns anos), vou passar a ignorar tudo o mais que você disser”.

“Se defender o voto em algum candidato a cargo político, irei excluir-lhe imediatamente da minha lista, sem chances de retorno”.

Ui, que meda! Então divulgar o último e único sucesso do cantor popular que está atualmente nas paradas e cuja fama não irá durar até o próximo carnaval, isso pode. Mas falar de política, que influencia a vida de todo mundo, ou tratar de alguma futilidade tão importante quanto tantas outras que circulam livremente, aí não pode? Ah, não! Tá certo que não sou nem um pouco chegado a reality shows ou a sucessos passageiros, porém, o que não pode mesmo é censura. Pare de tentar estimular o tolhimento da liberdade de expressão em um ambiente que é essencialmente plural e democrático.

9. Síndrome do invejado

Como era bom o tempo em que a mania de perseguição, um dos grandes males que assombram as sociedades ocidentais, fazia com que as pessoas sentissem-se observadas, excluídas ou traídas. Na era das redes sociais, a coisa ficou um pouco mais chata: as pessoas sentem-se invejadas.

“Sua inveja faz a minha fama”. 

“A força da sua inveja é a velocidade do meu sucesso”. 

Quanta presunção... Essas postagens parecem-me tão pequenas e mesquinhas. Mas ampliemos um pouco mais a crítica: ao invés de direcioná-la apenas àqueles que se sentem vítimas da cobiça alheia, vamos estendê-la a todos que se consideram o centro das atenções e que acham que qualquer comentário refere-se a sua pessoa. Meu amigo (virtual ou real), o mundo não gira ao redor de seu umbigo. E, por causa de comportamentos como esse, é bem provável que muito pouca gente tenha inveja de você.

8. Exibicionismo

É muito legal compartilhar as fotos de momentos especiais com a família e os amigos. É algo que se faz desde bem antes da internet, através de projetores e álbuns. Mas algumas fotos parecem ter sido compartilhadas menos por causa das pessoas que nela figuram e mais por causa daquele carro importado ao fundo, ou da garrafa de uísque puro malte de cinquenta anos sobre a mesa, ou da bolsa de luxo a tiracolo. Sim, estou falando da ostentação de privilégios ou bens materiais. Que também pode dar-se através de mensagens escritas, e não apenas fotografias. Afinal, ninguém precisa ficar repetindo constantemente sobre como sua própria vida é maravilhosa. E, claro, essa necessidade de autoafirmação acaba cheirando a infelicidade mal disfarçada.

Já que falamos em autoafirmação, aproveito para dizer que, se você se acha o mais esperto, o mais inteligente, o mais bonito, o mais forte, enfim, o máximo, não precisa fazer postagens que sugiram essa suposta superioridade. Você acabará passando a impressão de que sofre de baixa autoestima e que precisa constantemente provar suas habilidades.

Não há motivos para se preocupar com uma ou outra foto que você publique e que seja, digamos, mais ostentatória. Também não vá sair acusando de exibicionista qualquer pessoa que postar uma foto de um momento prazeroso. Essa é uma questão de bom senso, coisa que não é simples, mas nem tão difícil. Com que frequência você posta fotos desse tipo? O que escreve nos textos que as acompanham? Basta saber dosar.

Você não se torna uma pessoa melhor aos olhos dos amigos ao compartilhar esse tipo de conteúdo. Muito pelo contrário: a ostentação excessiva não combina com o mundo repleto de injustiças em que vivemos. O caso mais curioso, no entanto, é o do indivíduo que sofre do problema deste item e também daquele que foi relatado no item anterior: o sujeito se exibe sem parar e depois ainda reclama dos invejosos. Pode? Poder, pode. Todos são livres para ostentar sua futilidade e superficialidade em toda a sua glória.

7. Proselitismo religioso...

No item 10 da presente lista, mencionei que ninguém deveria tentar “coibir o tratamento de certos assuntos”. Agora é importante dizer que “tratar de um assunto” significa apresentar e defender o seu ponto de vista sobre o mesmo, e não simplesmente dizer coisas desconexas e sem sentido. É bom passar algumas mensagens positivas e inspiradoras de vez em quando, mas, às vezes, o pessoal exagera na pregação religiosa.

Sabemos que há pessoas das mais diferentes crenças nas redes sociais e, muitas vezes, fica parecendo que as postagens ligadas a religião têm o propósito de afirmar o credo de seus autores perante os demais. Muito parecido com o que os torcedores de futebol fazem em relação a seus times. Eu acharia muito interessante, e até empolgante, se o dogmatismo fosse deixado um pouco de lado e os religiosos utilizassem o espaço para debaterem aspectos importantes de suas crenças, procurando justificá-los com pitadas de filosofia, ética, lógica. Por “importantes” entenda-se também palpáveis, razoáveis, passíveis de serem discutidos. Afinal, afirmações irracionais podem estimular atitudes irracionais. Esse desejo talvez não seja tão utópico quanto parece: de vez em quando, costumo defender a ideia de que pelo menos os indivíduos mais instruídos, em busca da construção de uma sociedade melhor, já deveriam ter abandonado os dogmas medievais que os acompanham; eventualmente, recebo respostas, favoráveis ou contrárias, que acabam gerando pequenos debates.

Veja bem. Se você diz algo como: “nada acontece por acaso e tudo tem um propósito”, ou: “no fim, a justiça será feita e tudo ficará bem”, espera-se que, em seguida, você apresente os motivos quer o levaram a tais conclusões. Ou que justifique a necessidade de perpetuação de determinados pensamentos. Jogadas ao vento, sem qualquer contextualização, essas afirmações não dizem praticamente nada.

Enfim, devemos observar que podemos nos expressar a respeito de qualquer assunto, inclusive religião, mas seria muito bom se o fizéssemos de maneira honesta e consistente, ao invés de nos rendermos a simples apelações.

6. ...e outros fundamentalismos

Não são apenas as certezas religiosas que atrapalham um melhor entendimento entre os seres humanos. Em qualquer área, as certezas costumam ser prejudiciais, principalmente quando incidem sobre posturas pouco embasadas. Eu já havia dito em outro de meus textos, através da declaração de um personagem fictício:

“Tenho a forte impressão de que grande parte dos problemas que enfrentamos - intolerância, discriminação, opressão, ignorância, violência, guerras, depressão, destruição dos recursos naturais, convívio difícil e desarmonioso - devem-se à grande quantidade de certezas infundadas espalhadas por todos os lados. Ações baseadas em certezas que não se justificam podem ser muito perigosas. Sempre que não houver um modo seguro de conhecer ou saber algo, aceitemos a dúvida e sintamo-nos estimulados a investigar. Nunca julguemos o comportamento de uma pessoa ou comunidade tendo como base apenas as próprias convicções. Vamos além: abandonemos as convicções e coloquemo-nos como eternos discípulos da realidade. Desse modo, talvez possamos ver o surgimento de relações harmoniosas e de um entendimento agradável e benéfico entre todos. (...) Muita gente enxerga um valor elevadíssimo nas convicções inabaláveis. Mas que vantagem há em, aos quarenta anos, bradar que possui as mesmas ideias que possuía aos vinte? A experiência da vida não vale nada?”

Por isso, quando for falar de economia, política ou comportamento humano, procure fugir dos dogmas que costumam dominar essas áreas. Tome cuidado para não embarcar em uma determinada corrente econômica ou ideologia política como se estas fossem as únicas viáveis. Ao invés disso, demonstre a sua viabilidade, mas sem deixar de observar que alternativas também podem ser aplicáveis, talvez com resultados melhores em certos pontos. Apenas afirmar sua certeza sobre a veracidade de algo não irá convencer ninguém.

Quando for discutir sobre artes ou qualquer outro assunto, observe se não está cometendo generalizações. Ao generalizar, você pode acabar deixando passar algo que gostaria de encontrar. Já vi, por exemplo, muitas pessoas a comparar estilos musicais, afirmando que determinado gênero é melhor do que outro. Mas todas as canções desse estilo são realmente melhores do que qualquer uma daquele outro gênero? Você pode descobrir que não é bem assim.

5. Tranqueiras inúteis

E aqui, perdidos no meio da lista, estão os tipos de conteúdo que devem incomodar o maior número de usuários das redes sociais. São as postagens extremamente desnecessárias de “bom dia” ou “hoje é quarta-feira”; ou aquelas com indiretas que só farão sentido a um público-alvo que talvez nem se perceba como tal; ou as pegadinhas que dizem que ajudarão alguém se você passar o conteúdo adiante; ou as mensagens automáticas e insistentes de aplicativos utilizados por seus contatos; ou as que exigem que você clique em algum linque ou autorize algum acesso especial à sua conta para, então, exibir o restante da mensagem. Não estou falando da divulgação de saites, blogues, eventos ou outro tipo de material, que pode revelar conteúdo interessante. Refiro-me, sim, àquele tipo de linque que acaba desencadeando alguma ação indesejada e inesperada. O que dizer, então, de obviedades como “se você ama sua mãe, compartilhe”, ou “se seus filhos são lindos, comente”? É quase o mesmo que dizer: “se você tem um nariz, compartilhe”.

Aqui vão algumas dicas. Se vir uma manchete e quiser ler a matéria, mas sem submeter-se a alguma condição, copie-a e faça uma busca, através de algum mecanismo de pesquisa, como o Google, ou no próprio portal no qual a notícia tenha sido publicada (caso haja alguma indicação de qual seja o portal junto à manchete). Só compartilhe alguma postagem que esteja pedindo ajuda se o próprio ato de compartilhar for ajudar, como no caso de pessoas desaparecidas (sempre que possível, verifique se o caso é mesmo verídico; as mensagens sinceras irão conter, provavelmente, alguma referência). Ninguém vai doar nenhum valor a um necessitado quando você compartilhar uma imagem. Caso queira colaborar financeiramente com alguém ou com alguma causa, a única maneira de fazê-lo é colocando a mão no bolso ou convencendo outras pessoas a fazê-lo. Lembre-se: muita gente utiliza-se desses artifícios tacanhos apenas para tornar populares as suas postagens.

Por isso, desconfie de qualquer mensagem que peça para ser compartilhada. É bem provável que seu autor esteja mais preocupado com popularidade do que com a causa que aparentemente defende. Tenho percebido que as mensagens mais interessantes evitam apelar para esse tipo de recurso.

Agora, uma pergunta: é mesmo necessário divulgar o atual estado emocional ou alguma coisinha sem importância que esteja fazendo?

“Estou muito feliz”.

“Vou comer uma pizza”.

“Acabo de espremer uma espinha gigantesca”.

É que vejo tanta gente fazendo isso que, às vezes, chego a pensar que estou deixando passar alguma coisa.

Ainda na linha das mensagens vagas, temos aqueles textos truncados, que podem não fazer muito sentido para os eventuais leitores e acabar sendo mal interpretados.

“Hoje é o início de uma nova fase em minha vida”.

“A partir deste dia, serei uma nova pessoa”.

Isso deve ser referir a alguma mudança de hábito que o indivíduo tenta levar a cabo, como uma investida para emagrecer, ou parar de fumar, ou não depositar mais tanta confiança nos outros, ou “sair do armário”, enfim. O fato é que a resolução não precisava ter se tornado pública. Pelo menos não de forma tão vaga. Além disso, após avaliar se a mudança é realmente necessária, o importante é mudar, e não avisar aos outros que está mudando! O aviso pode acabar desestimulando a ação, pois gera a falsa impressão de que algo já estaria sendo feito na direção do objetivo.

“Existem coisas que ainda me chocam...”

Sim, disso todos nós sabemos. Você não deve ser um insensível sem coração. Mas seja mais claro e diga que coisas são essas.

“Se continuarmos desse jeito, não sei onde vamos parar.”

De que jeito? A que está se referindo?

Perceba que minha crítica não é direcionada ao conteúdo humorístico ou a manifestações artísticas, e sim a mensagens inócuas, que não dizem absolutamente nada sobre nada.

4. Humor negro (ops! ...de mau gosto)
e o politicamente incorreto

É a já velha (ou da melhor idade) polêmica entre o politicamente correto e aqueles que acusam seus adeptos de fazerem patrulhamento ideológico, moralista, e, então, clamam pela liberdade de expressão e de manifestação do pensamento. Mas, em minha modesta opinião, há, realmente, brincadeiras e posturas que ultrapassam o limite. E qual seria o limite? Bem... Aqui é preciso apelar novamente para o bom senso.

Parece-me que há mesmo exageros de ambos os lados. Sou contra a imposição de restrições excessivas, que visem a textos assépticos, sem liberdade de crítica. Mas considero desmedida a reação contra o que se convencionou chamar de “politicamente correto”. A fim de evitar confusões e mal entendidos que levem a ideias sobre censura, prefiro defender meu posicionamento não com base nos limites que a liberdade de expressão encontra nas fronteiras com outros direitos, mas sim a partir do fato de que piadas e brincadeiras que exploram conceitos fáceis e do senso comum são extremamente fracas, dignas de um Zorra Total (humorístico televisivo de qualidade, no mínimo, duvidosa). É bem mais difícil e meritoso fazer um humor refinado de verdade, livre de apelações corredias. E olha que os palcos estão cheios de humoristas que se dizem modernos e de humor apurado, mas que insistem em tentar arrancar risadas fazendo troça de aleijados, pobres, negros ou minorias que não se enquadram no “comportamento padrão”.

Sempre ouvimos que toda brincadeira possui um fundo de verdade. Mas, esteja brincando ou não, observe se suas postagens não denunciam apenas uma tentativa de chamar a atenção, ou até mesmo preconceito verdadeiro. Creio que a grande maioria reprovará qualquer iniciativa de difusão do ódio ou de imposição de limitações a qualquer grupo. E eu dificilmente me colocarei ao lado de uma turminha que defende o direito de chamar os gordinhos de “rolhas de poço”, os anões de “pintores de rodapé” ou qualquer outra excrescência semelhante.

Outro dia vi uma charge que se dispunha a defender a limitação dos direitos humanos para certos grupos. Limitação com a qual discordo, diga-se de passagem. No cartum, o assassino reclamava com os policiais devido às algemas estarem muito apertadas, conquistando o apoio dos transeuntes que observavam a cena. Mas, por que diabos o assassino e as pessoas mais destacadas que o defendiam eram negros e as vítimas e os policiais eram brancos? Será que o intuito era apenas o de reforçar estereótipos ou a peça foi concebida de modo tão instigante que visava proporcionar dois níveis de reflexão, um criticando os “direitos excessivos” e o outro denunciando um triste quadro de discriminação?

Você tem todo o direito de debater sobre a questão das cotas raciais ou sociais, mas se não sabe a diferença entre ostentar a expressão “100% negro” ou “100% branco”, ou se acha que deveria existir um dia do orgulho hétero, então, infelizmente, você está muito distante de compreender o que foi dito neste item. Será mesmo tão difícil perceber que a ofensa está mais no contexto do que em simples palavras?

3. “Mentiroso! Mentiroso! Caluniador!”

Este é um dos pontos mais graves, pois pode resultar em bem mais que simples incômodos. Trata-se das mentiras e manipulações.

Seja criterioso com aquilo que compartilhar. Prefira informações que estejam amparadas por linques direcionados a fontes confiáveis. Faça uma pesquisa para verificar se a informação é verdadeira. Seus amigos esperam, no mínimo, poder confiar naquilo que você está divulgando.

Tome cuidado com mensagens que procurem manipular o contexto, através da omissão e da distorção de informações, evitando, assim, que você e seus amigos caiam em armadilhas. Não tente dar uma de espertalhão e espalhar mensagens que você sabe que são tendenciosas além do aceitável, apenas pelo fato de estas tentarem defender um ponto de vista com o qual você concorde. Seus amigos mais astutos acabarão ignorando a postagem e ainda poderão pensar que você foi tapeado por ela. É muito simples valorizar excessivamente determinadas questões e ignorar aquelas que não contribuem com a opinião que se pretende difundir, mesmo que sejam de extrema importância.

Veja-se, por exemplo, o caso de pessoas que divulgam, insistentemente, informações que prejudicam determinado partido político, como ocorrências de corrupção. Os indivíduos mais conscientes sabem que corrupção é um problema sério, que acomete o sistema político como um todo, afetando boa parte dos principais partidos, aqui e no restante do mundo. É extremamente inadequado tratar de um problema tão sério utilizando-se de partidarismo, pois isso não contribui em quase nada para as soluções. Mas é exatamente isso o que fazem as pessoas que praticam ataques tendenciosos: criticam repetidamente a corrupção de determinado partido, mas não propõem positivamente nenhuma outra agremiação partidária. E por que agem desse modo? Simplesmente porque, caso revelassem o partido de sua preferência, seria altamente provável que este estivesse envolvido em tantos escândalos quanto qualquer outro. A farsa estaria revelada. Por isso, se pretende contribuir para um debate honesto e consciente, prefira adotar uma postura mais propositiva, ao invés de apelar para críticas parciais e, consequentemente, omissas. Política é coisa séria (ou, pelo menos, deveria ser), e não um jogo no qual você abraça incondicionalmente uma torcida. Devemos valorizar os textos argumentativos, embasados por raciocínios consistentes e por informações verdadeiras.

Outro truque muito comum é a atribuição de textos a autores que não os escreveram, numa tentativa de despertar um maior interesse pelos mesmos. É muito fácil identificar esse tipo de trapaça com uma rápida pesquisa pela internet. Não irei apreciar ou concordar com um texto apenas pelo fato de ter sido escrito pelo Paulo Coelho ou pelo Arnaldo Jabor. Muito pelo contrário, no caso desses dois.

Mas o caso mais perigoso é o da divulgação de denúncias. É muita irresponsabilidade espalhar a foto de um indivíduo qualquer ao lado da imagem de uma criança com marcas de agressão e escrever logo abaixo, em letras garrafais: “Covarde!”. Ou, então, divulgar a imagem de um jovem seguida das inscrições: “Este é o marginal que está praticando assaltos no centro da cidade!”. Ora, isso pode transformar a vida de um inocente em um verdadeiro inferno ou, até mesmo, estimular tentativas de “justiçamento” independentes do direito oficial, o que significa, na prática, injustiça. Portanto, se você desconhece o caso e não sabe nada sobre sua veracidade, NÃO compartilhe esse tipo de comunicação! E observe que, para justificar publicações como essa, não vale dizer que ouviu falar, mesmo que tenha sido da boca de um amigo ou parente. Novamente, o ideal é apresentar fontes confiáveis e fazer a divulgação apenas se for realmente ajudar de alguma forma, sempre recomendando a denúncia às autoridades. Seja responsável!

E não se engane. A manipulação pode vir de qualquer lugar, até mesmo de onde menos se espera. Por isso, diversifique suas fontes de informação, pois mesmo aquele grande portal de notícias, aquela revista semanal ou aquele blogue famoso podem estar divulgando apenas a parte que lhes interessa da realidade ou, simplesmente, mentindo. Tome cuidado com as distorções, inclusive aquelas que você mesmo ajuda a divulgar, a fim de evitar a fama de mentiroso ou manipulador.

2. Hostilidade frente às divergências

As redes sociais, assim como o mundo, estão repletas de pessoas com as mais diferentes opiniões e pensamentos. É claro que ninguém detém a verdade absoluta ou um conhecimento definitivo. Não existe um jeito certo de se viver. Por isso, a fim de levar a vida com tranquilidade, é muito importante aceitar essa pluralidade e saber lidar com ela.

Ao contrário do atomismo das mídias tradicionais, as redes sociais são ambientes mais colaborativos e democráticos. E aquele espaço para comentários não está ali à toa. Sempre que compartilhar algo, esteja preparado para receber respostas de seus amigos e conhecidos, estejam eles concordando ou discordando de suas proposições. Gosto muito quando há divergências, pois isso abre espaço para o intercâmbio de ideias e de informações, produzindo novas formas de pensamento e gerando transformações. A humanidade precisa dialogar mais, compartilhar suas experiências e pontos de vista, e as redes sociais são excelentes espaços de interação.

Note que o respeito é muito importante, tanto no momento de postar alguma coisa, quanto no de comentar as postagens de outras pessoas ou de responder aos comentários. Deve-se ter sempre em mente que os embates são entre ideias, e não entre pessoas.

Pode ser que alguém discorde, mas acho que é preciso compreender que a maioria das questões humanas não se resolve com respostas prontas e exatas. Dificilmente teremos preto ou branco, mas sim uma escala com diferentes tons de cinza, de um extremo ao outro. Ou (por que não?) diferentes tons das mais diferentes cores. Uma coisa que atrapalha imensamente essa visão são as rotulações. Rotular, em muitos casos, é o mesmo que limitar. É reduzir ou simplificar as opiniões e posições alheias. E, algumas vezes, é agir com preconceito e radicalismo. “Relativista!” “Comunista!” “Reacionário!” “Conservador!” “Elitista!” “Ateu!” Use os rótulos enquanto eles ajudarem, mas não se prenda a eles e abandone-os assim que se mostrarem incapazes de acompanhar a complexidade das opiniões tratadas, colocando-se como verdadeiros obstáculos ao avanço da discussão.

Há algum tempo atrás, passei por uma pequena experiência de intolerância ao contraditório em redes sociais. Uma pessoa com quem eu mantinha algum contato, sempre cordial até então, inclusive na “vida real”, compartilhou a notícia de que o Papa havia dito que os homossexuais seriam uma ameaça à humanidade. Ligado ao catolicismo, essa pessoa endossava a opinião do clérigo e ainda defendia a supressão de direitos conquistados pelos homossexuais, como a união estável entre indivíduos do mesmo sexo.

Era perfeitamente aceitável que qualquer um concordasse ou não com sua opinião. Eu discordei e, respeitosamente, expus meus motivos. Pedi a ele que atentasse para o fato de que não havia apresentado nenhum motivo para a limitação que propunha, a não ser as próprias crenças religiosas. Argumentei que esse motivo não era suficiente para aquele propósito, visto que nem todos compartilhavam das mesmas crenças. Comparei sua tentativa com as limitações que foram impostas a outros grupos no passado, como aos negros e às mulheres, por exemplo.

A resposta que recebi foi extremante rude. Ao invés de tentar rebater os argumentos, ele passou a atacar-me pessoalmente, dizendo que eu queria apenas causar confusão e parecer superior a ele. Sua rispidez foi tamanha, que até alguns de seus amigos e algumas pessoas que também se diziam católicas passaram a criticar sua postura.

Alguns dias depois, eis que ele fez uma nova postagem, atacando um deputado homossexual pelo fato de este ter criticado o Papa com base em uma notícia falsa, que teria imputado ao pontífice uma falsa declaração. Fiquei curioso e fui verificar que notícia teria sido essa. E não é que era exatamente aquela de sua primeira postagem? Vejamos, então. Alguns dias antes, ele havia divulgado aquela mesma notícia e concordado com o seu teor. Mas um deputado que, assim como ele, havia sido enganado pelo jornal, merecia ser esculachado por isso. Bom, é claro que, àquela altura, eu sabia que a reação não seria nada boa, mas, mesmo assim, decidi expor-lhe a contradição. Resultado: ele deixou de ser meu amigo na rede social.

Não sei se o rompimento estende-se à “vida real”, pois, desde então, ainda não o encontrei. Mas admito que fiquei chateado, como fico sempre que a cordialidade é abandonada e a divergência de opiniões é confundida com desrespeito.

1. A crítica desnecessária (ou nem tanto)

Criticar o comportamento de outros usuários da rede social também pode ser considerada uma atitude estranha. Fazer uma lista sobre isso, então, pode ser bem inconveniente. Afinal, como já foi reforçado em itens anteriores, essas redes são ambientes livres e democráticos.

"Mas minha intenção é a melhor possível.”

Ora, de boas intenções o inferno está cheio!

“Eu só queria contribuir para a construção de um ambiente mais agradável, mais sincero e honesto, e até mais divertido.”

Não me venha com essa! Em um ambiente plural, todos têm direito de publicar o que bem entendem!

“Mas eu não discordo desse direito. A lista não trata dos assuntos das postagens, e nem das opiniões dos autores. Deixei isso claro na abertura! Apenas critiquei o modo como as coisas são feitas às vezes, chegando a comprometer o prazer e a utilidade da experiência, pois é possível tratar qualquer assunto de forma leviana, por mais importante que seja. E a pluralidade resulta justamente nisso aí: um ambiente onde todos publicam o que querem e onde todos criticam o que querem, mesmo que estejam se referindo a postagens de outras pessoas.”

Ora, meu amigo, mas isso se aplica não apenas às redes sociais, e sim à vida. Em uma sociedade que se diz democrática como a nossa, é essa a liberdade que se espera encontrar! Contudo, sabemos que há muitas pessoas que ainda torcem o nariz para essa constatação. Que não compreenderam que, provavelmente, as coisas nunca estarão acabadas. Essas pessoas podem sentir-se incomodadas...

“Claro, claro... Liberdade de verdade é isso aí, mas... Já percebeu que está conversando com você mesmo?”

É, é verdade. É melhor parar por aqui.

9 de janeiro de 2012

Epílogo
- No qual Alceu, finalmente, encontra Deus (ou se dá conta de que já o havia encontrado)


Prólogo - Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI - Parte VII - Epílogo

Escuridão completa. Alceu não podia enxergar absolutamente nada. Nada sentia. Frio, calor, conforto, incômodo. Nada. Também nada ouvia. Era como se a única coisa existente fossem seus pensamentos. Não sabia o que fazer para restabelecer a normalidade. A situação parecia estender-se por dias. Não conseguia ter uma boa noção do tempo. Aflito, pôs-se a refletir. Tudo aquilo de que se lembrava teria realmente acontecido em algum momento? A conversa com o bispo, a escada e mais nada...

Um pequeno ponto de luz pareceu piscar ao longe. Não estava certo do que tinha avistado. Em dado momento, a sensação repetiu-se, porém era como se uma voz lhe falasse. Não sabia se realmente tinha ouvido algo ou se era o próprio pensamento. Tanto que não conseguia identificar se tinha sido um som grave ou agudo, belo ou perturbador. Parecia mesmo a consciência a manifestar-se. A voz, então, repetiu a mensagem, mas esta não era linear. Era mais como um fluxo de ideias, ora sequenciais, outrora sobrepostas.

- Grande erro... Encontro marcado...

A impressão era a de que o pensamento estava fora de controle. As palavras e expressões insistiam:

- Encontro... Deus...

Enfim, Alceu manifestou-se, mas não podia falar, pois era como se não tivesse corpo. A resposta também fluía na forma de pensamentos, com certa de dificuldade no início:

- Os humanos... Eles encontraram inúmeras evidências de um processo que, após bilhões de anos, resultou no surgimento de incontáveis espécies de seres vivos. Evolução... A seleção natural como principal mecanismo... O cérebro humano, com sua capacidade de raciocínio e consciência, é resultado desse longo processo. O processo... São tantas evidências... É fato...

As ideias iam organizando-se de modo difícil, mas ele ia acostumando-se lentamente à situação.

- A sobrevivência dos seres mais aptos e a consequente transmissão de seu material genético aos descendentes, de acordo com suas características e as condições ambientais, não é uma simples sequência de improbabilidades. Mutações no decorrer de longos períodos de tempo... Isoladas não levariam a grandes coisas, mas submetidas a um processo natural de seleção, baseado na sobrevivência e reprodução dos seres mais adaptados ao ambiente, entre outros fatores, culminaram em tantas formas de vida... Esse processo não precisa ter sido direcionado, mas não é uma mera série de eventos independentes. Afinal, cada mutação ocorre em um cenário diferente do anterior, com cada vez mais informação acumulada nos genes. Trata-se de um encadeamento indissociável. É bem provável que algo semelhante aconteça sempre que tivermos estruturas autorreplicantes, com capacidade de produzir cópias de si mesmas, eventualmente imperfeitas, em um cenário que favoreça a sobrevivência e a reprodução daquelas que possuírem determinadas características. Isso significa que a única forma de mente racional e consciente que conhecemos, como a que habita o cérebro de cada ser humano, é consequência desse processo. Para aceitar a existência de Deus, é preciso lidar com a ideia de que existe uma mente racional primordial, semelhante às mentes humanas, mas que independe do único processo capaz de produzir mentes que conhecemos. É uma ideia realmente difícil, pois parece que as mentes são resultado de um processo complexo, extremamente demorado e, acima de tudo, natural. Como poderia uma mente com características semelhantes e até mais poderosa existir antes desse processo, independente dele?

A voz continuou:

- A alma... Os humanos... A alma...

Ao que Alceu rebateu, organizando ideias:

- Não, não há lugar para a alma. Cada animal é da mesma espécie que seus pais. A evolução se dá lentamente... Só é possível perceber grandes transformações em longos períodos de tempo. Como determinar quem foi o primeiro homem? Qual teria sido o primeiro animal a nascer com alma? Deus teria decidido injetar almas na espécie humana em algum momento? Onde estavam as almas antes do aparecimento da vida?

==##==

Em um auditório quase lotado, no qual estavam presentes professores, estudantes e visitantes, o evento transcorria normalmente. A maioria do público demonstrava grande interesse pelo debate entre os convidados. Alceu acabara de levantar-se de sua cadeira e dirigir-se ao púlpito.

- Acredita-se que a alma represente a essência de cada indivíduo e que ela seja responsável, inclusive, por sua personalidade. No entanto, é bem possível que isso não seja verdade. As memórias, as opiniões, os sentimentos, enfim, a personalidade, parecem ser reflexos da estrutura cerebral e suas complexas reações químicas. O que chamam de alma não deve existir de verdade, mas apenas como um conceito, uma representação do que há de essencial em cada sujeito. Conhecemos vários casos de pessoas que se envolveram em acidentes ou desenvolveram doenças que afetaram o cérebro. Em muitos desses casos, a personalidade da vítima alterou-se drasticamente. As preferências e o comportamento mudaram. Memórias foram perdidas. Os familiares viam-se diante de uma pessoa rude, mas que costumava ser dócil, ou vice-versa. Que passou a odiar coisas que antes amava. Temos também os medicamentos, que ajudam tanta gente a enfrentar momentos difíceis, de ansiedade ou tristeza, através da interferência na química cerebral. Remédios que podem auxiliar na manutenção de estados de tranquilidade para aqueles que atravessam períodos turbulentos. E não nos esqueçamos dos efeitos de algumas substâncias ilícitas, um misto de euforia e depressão, utilizados como válvula de escape por boa parcela da população. Em todos esses casos, o cérebro é a chave.

==##==

- O sentido da vida... - disse a voz da escuridão.

Alceu refletiu, como se respondesse à provocação, a partir daquela espécie de limbo em que se encontrava:

- É verdade... Se a vida não é obra de um criador, provavelmente não possui um sentido objetivo... Um sentido absoluto... Mas qual é o problema? Não existe nada que determine que algum sentido intrínseco deva existir. Cada um pode dar à própria vida o sentido que bem entender. Mais de um sentido, aliás. E, se achar que escolheu o sentido errado, pode mudar e escolher outro.

- A vida...

- A vida é, primordialmente, uma consequência que temos o direito e, em minha opinião, o dever de desfrutar.

- O sentido da vida... - repetiu a voz.

- O sentido da vida é para frente... - pensou Alceu - Para frente...

==##==

Na plateia, a esposa Elza, os irmãos Caio e Ricardo.

- Os supostos milagres cujos relatos conhecemos costumam estar distantes, temporal e geograficamente. - proferia o arquiteto - Não há nenhum caso bem documentado de alguma ocorrência que tenha desrespeitado as leis da física. Cânceres são controlados. Acidentes têm sobreviventes. São coisas que acontecem. Acontecem a religiosos e a ateus. Mas vamos assumir, por um momento, que milagres, isto é, acontecimentos realmente extraordinários e inexplicáveis, aconteçam. Na verdade, eles acontecem mesmo, pois não temos resposta para tudo. Um grande erro dos teístas está em atribuir automaticamente esses acontecimentos a um ser superior que teria criado o universo. Por que fazem isso? Por que dão esse salto ilógico e injustificado? Se você não conhece a causa de algum evento, isso significa que é obra de Deus? Não seria melhor se você simplesmente admitisse que desconhece as causas? Se você nem conseguiu provar que esse ser existe, então não pode atribuir feitos a ele e ainda querer que todos aceitem. É importante questionar também a postura de atribuir o que acontece de bom a Deus e o que acontece de ruim ao acaso, infelizes coincidências, o demônio ou ao mistério divino, que não poderia ser conhecido pelos humanos, mas que conduziria a humanidade pelo melhor caminho possível. Ora, ora! Ateus e religiosos podem salvar-se de acidentes. E, apesar de parecer que, em alguns casos, as orações surtem efeito sobre os enfermos, o fato é que em tantos outros isso simplesmente não acontece. O efeito placebo é velho conhecido da ciência, obrigatoriamente empregado nos testes de medicamentos. E é bem provável que não exista essa bobagem que tanto repetem, a respeito de um momento predeterminado para a morte. A não ser que estejamos falando de algo natural, tal qual costumo dizer, de modo superficial: qualquer incidente parece ter sido determinado pelos acontecimentos anteriores. Como não se pode mudar o passado e não se conhece tudo o que ocorre ou ocorrerá no universo, então estamos diante de inúmeros incidentes inevitáveis. Se uma pessoa envolve-se em algum tipo de acidente, o que determinará sua sobrevivência são os detalhes físicos do imprevisto: o amortecimento por algum obstáculo, a velocidade, a altura em que se encontrava, as partes do corpo atingidas, entre outros, todos determinados pelas circunstâncias do próprio acidente e por fatos ocorridos anteriormente.

==##==

No corredor do hospital, o médico dizia a Elza:

- Ele está inconsciente, pode ficar assim por semanas, mas há chances de recuperação.

Lágrimas desciam pelo rosto da mulher.

- No estado atual, ele pode ter alguns sonhos. Não é possível determinar se haverá perda de memória. - concluiu o profissional.

==##==

Um dos debatedores perguntou a Alceu:

- E se o criador for dotado de energias? E se você estiver errado ao considerar que não existe tempo fora do universo? Deus pode ter organizado um estado de caos que existia anteriormente.

O mediador autorizou a resposta, que veio após um gole de água:

- E se a matéria estivesse congelada em um estado de eterno presente? E se Deus for uma inteligência embutida no próprio universo? E se ele não precisar do tempo? E se... E se? Você está apenas esforçando-se para acreditar! Está fazendo o máximo para adaptar sua teoria às contestações que vão surgindo, a fim de conseguir continuar acreditando! Até quando agirá desse modo? Essas suposições não são suficientes para validar e comprovar uma ideia. O fato é que não há evidências que nos permitam ter certeza a respeito da existência de um ser superior! E, como a existência desse ser está longe de ser evidente, a única postura aceitável nesta questão é a dúvida e a contínua investigação. Aproveito para pedir-lhe que reflita sobre as perguntas que fez. Procure por mais informações a respeito da relação entre matéria, energia, espaço e tempo.

Travou-se uma breve discussão.

- Já que está falando sobre ciência, responda-me: você não percebe que a teoria evolucionista entre em choque com a Segunda Lei da Termodinâmica? Em sistemas fechados, toda a energia se degrada até que seja atingido um estado desordenado, chamado de “morte térmica”. Frente a isso, como o sistema evolutivo pôde produzir formas ordenadas de vida?

Mais um gole de água e, em seguida, a resposta:

- O planeta Terra não é um sistema isolado. Ele faz parte de um sistema maior, o sistema solar, que, por sua vez, integra algo ainda maior, o universo. Todos esses sistemas caminham para a “morte térmica”, inclusive o universo em sua totalidade, mas, enquanto esse momento não chega, ocorrem trocas de energia entre os sistemas. Desde sua formação, nosso planeta e seus sistemas naturais possuem uma fonte constante de energia: o sol. Trata-se de uma fonte esgotável, e seu fim representará, muito provavelmente, a morte de todos os sistemas que dela dependem.

==##==

Em meio ao nada, a misteriosa voz continuava a desafiar:

- Ainda ousa negar minha existência?

Pensamentos fluíam como resposta:

- O ateu cético não nega diretamente a existência de Deus, e sim a crença cega em sua existência. Portanto, o que o ateísmo nega é a afirmação do teísmo. Ele vê o teísta a afirmar que existe um ser superior, baseado em uma fraca argumentação, sem apresentar evidências suficientes. Então, ele contesta... Por quê? Não posso manter essa mesma crença... Não consigo... Não há motivos, a não ser uma questionável tentativa de me enganar!

==##==

Um espaço para perguntas foi aberto antes do intervalo. Da plateia, um dos estudantes dirigiu uma interrogação a Alceu, a respeito de um sentimento pessoal que lhe daria a certeza da existência de divindades. Ele respondeu:

- Você fala como se possuísse um sentido extra que os céticos não possuiriam, o qual chama de “fé”, que lhe permitiria perceber um mundo espiritual. Em primeiro lugar, devo perguntar-lhe: como você pode ter certeza de que sua percepção do mundo espiritual é confiável? Sabemos que as percepções do mundo físico estão longe de serem dignas de confiança irrestrita. Mas irei considerar que você esteja falando a verdade, isto é, que realmente acredite no que disse. É claro que não conseguirá demonstrar nada a esse respeito. Da minha parte, tenho o direito de duvidar. Por experiência, sei que até mesmo outros teístas estranhariam sua afirmação. Não entendo por que um criador faria com que algumas de suas criaturas fossem privadas desse sentido. E continuo achando que “fé”, no sentido religioso, é uma palavra que designa a crença de que algo é verdade, mesmo que não haja provas suficientes ou mecanismos de verificação. O importante, no entanto, é que, se você não usar esse “sentido extra” para cometer abusos contra outras pessoas ou para tentar interferir em suas vidas contra a vontade delas, tudo bem. O máximo que me permito fazer é dizer-lhe: seja feliz com sua fé! Seria muito bom se tivéssemos um pouco mais de tempo, para que você nos explicasse melhor o funcionamento de seu sexto sentido e o modo como as informações são captadas. Será que tudo o que você ouviu na igreja ou leu na Bíblia não acabou por influenciar sua percepção? Por que as pessoas de outras partes do planeta ou de outras denominações religiosas, que afirmam possuir esse mesmo tipo de sentido, percebem mundos espirituais diferentes daquele que você capta?

==##==

Elza, Ricardo e o pai aguardavam emocionados no saguão do hospital. A mãe falecera seis anos antes. Quando Caio surgiu, trazendo Alceu em uma cadeira de rodas, a esposa não se conteve. Correu até o marido e deu-lhe um forte abraço, aos prantos. Ricardo e o pai sorriram, entusiasmados. Em seguida, pouco antes de entrarem no automóvel, Caio aconselhou Alceu:

- Estamos muito felizes em tê-lo de volta. A situação é um tanto delicada, mas, segundo os prognósticos médicos, há chances de que você se recupere bem. Procure evitar os excessos. Devemos ficar todos atentos a qualquer sinal de alteração.

==##==

Quanto mais tempo permanecia naquela situação, mais parecia que a estranha voz e os próprios pensamentos iam fundindo-se em uma única linha de raciocínio.

- O mais importante é definir o que é Deus... É perigoso tratar desse conceito sem antes defini-lo com objetividade...

As ideias não paravam de fluir.

- Alguns dizem que Deus é uma espécie de força maior que regula as leis do universo. Outros afirmam que ele é um ser inteligente, capaz de observar os seres humanos e até de intervir por eles. E há uma gama enorme de definições diferentes. Entretanto, o uso de uma mesma palavra para tratar de conceitos tão distintos gera grande confusão. Muitos tentam demonstrar a necessidade da existência de um ser criador ou organizador e acham que, desse modo, já estariam automaticamente demonstrando a existência do deus da mitologia cristã ou de qualquer outra mitologia específica. Por isso, todos aqueles que pretendem referir-se a um mistério universal deveriam evitar a utilização da palavra “Deus”, a fim de produzir uma exposição de ideias mais honesta, sem nenhuma apelação para tentativas de convencimento através de mal entendidos.

==##==

Elza ainda estava impressionada com a recuperação do marido. O ocorrido sempre lhe voltava à mente, enquanto o observava sobre o palco.

- Passei por uma experiência de quase morte recentemente. Lembro-me de túneis, luzes, da sensação de estar fora do corpo e até de um encontro com uma consciência superior em um cenário de total escuridão.

Risos na plateia e entre alguns dos debatedores.

- É fascinante, mas não nos deixemos enganar. Experimentos já indicaram que características do próprio mecanismo de funcionamento cerebral são as prováveis causas desse tipo de visão. As pesquisas do neurologista Kevin Nelson, da Universidade de Kentucky, por exemplo, apontam para o sonho lúcido e os estágios do sono como os grandes responsáveis pelas semelhanças entre os relatos de diferentes pessoas. Os túneis iluminados seriam resultado da diminuição do fluxo sanguíneo para os olhos. Já a sensação de estar fora do corpo deve ser consequência de uma espécie de desligamento da região cerebral responsável pela percepção espacial. Já é sabido que a baixa atividade nesta região provoca esse tipo de percepção.

==##==

Alceu não mais sabia quando as ideias eram suas ou do ser oculto que com ele dialogava.

- Muitos teístas esforçam-se para diferenciar Deus de outras figuras míticas, como as fadas e os unicórnios. Argumentam que o primeiro é resultado de uma conclusão lógica a respeito de um criador necessário, enquanto os demais seriam apenas lendas mundanas surgidas a partir da grande imaginação dos seres humanos. Acontece que dois pontos simples eliminam essa diferenciação e jogam Deus, sim, no mesmo nível dos demais mitos. O primeiro ponto é o fato de que a ideia de Deus está longe de ser evidente. Já demonstrei em mais de uma ocasião que a conclusão dos teístas, além de não ser óbvia, não é certa, não é incontestável. O outro ponto se revela quando vemos os teístas defendendo uma narração mitológica mais completa, composta por descrições do processo de criação do universo, passando por interações entre divindades e humanos, chegando à conhecida passagem sobre o criador que envia o próprio filho para salvar a humanidade de seus pecados, sem a mínima argumentação lógica, mas com base, unicamente, em escritos considerados sagrados. Após passar por esses dois filtros, Deus não é mais tão diferente de outras criações humanas.

==##==

Do púlpito, Alceu polemizava. As reações do público eram das mais diversas.

- A própria existência de tantas religiões depõe contra todas elas, apesar da negação de muitos teístas. Para encontrar falhas em cada mito religioso, basta procurar por aquilo que os seguidores de outras religiões têm a dizer sobre ele.

Risos e sinais de reprovação.

- Se você segue fervorosamente uma religião, saiba que os adeptos de outras tantas seitas espalhadas pelo mundo também consideram possuir motivos profundos a embasar suas crenças, assim como você. E isso inclui o espiritismo, apesar de alguns de seus seguidores o defenderem como sendo uma doutrina, e não uma religião. Ora, o espiritismo também possui seus mitos, que estão na própria descrição do funcionamento do mundo dos espíritos. Não há experimentação científica por trás da construção dessa mitologia. E seus seguidores também são dogmáticos, posto que não os vejo, principalmente os divulgadores, a duvidar das explicações proferidas por seus mentores. Quando leio uma obra de Allan Kardec ou Chico Xavier, saltam aos olhos os erros, as imprecisões e até preconceitos. Mas a pergunta que realmente fica quando leio algo como “O Livro dos Espíritos” é: como as pessoas sabem que essas informações não saíram unicamente da imaginação do autor? Não seriam estas apenas obras de fantasia, semelhantes àquelas produzidas pelos grandes autores da literatura fantástica? Lembremo-nos do que eu disse anteriormente a respeito do cérebro e sobre as supostas experiências fora do corpo. Qualquer ser humano dotado de boa capacidade intelectual pode forjar a mediunidade valendo-se de artimanhas. Várias obras e feitos do espiritismo foram contestados e, submetidos a experimentos, mostraram-se falsos. Aqueles que não foram contestados não são necessariamente verdadeiros.

==##==

O silêncio começava a ser quebrado por ruídos extremamente baixos, difíceis de serem ouvidos, semelhantes a chiados e bipes. A escuridão, no entanto, permanecia.

- A definição de regras pela humanidade deve ter sido um processo árduo e demorado. Mas não é difícil perceber as vantagens de se condenar atos que consideramos criminosos, como os assassinatos. Ao defender a ideia de que matar é errado, cada ser humano está reduzindo as chances de que ele mesmo seja morto por alguém. A partir do momento que os indivíduos quiseram proteger a propriedade privada, devem ter intuído, sem muita dificuldade, que um bom meio de fazê-lo seria através da defesa de que roubar é um ato condenável. É lógico que há interesses por trás de cada lei. O código penal é imperfeito e está repleto de conteúdo polêmico e questionável. Estatísticas apontam que a justiça costuma beneficiar certos grupos sociais, na redação das leis e em sua execução. O que é preciso ficar claro é que nenhuma religião é dona daquilo que conhecemos como moral. Vários povos e tribos ao redor do mundo, de diferentes crenças ou sem crença mística alguma, definiram suas regras e seus códigos de ética de maneira independente, com semelhanças e diferenças entre si. As semelhanças devem ter surgido dos critérios mais óbvios, como aqueles que mencionei. O que as religiões vêm fazendo a partir de um determinado momento é uma tentativa - bem sucedida, como podemos perceber - de se colocarem como donas, criadoras e guardiãs da moral. É claro que, após essa apropriação, as religiões contribuíram com a criação e a manutenção das regras e costumes, mas nada disso aponta para a existência de uma suposta moral absoluta. A “regra de ouro”- “não façamos aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem” - foi e é de conhecimento de várias culturas, em diferentes épocas e locais, independente das crenças religiosas. Não é tão difícil que, em sociedades minimamente organizadas, os indivíduos cheguem à conclusão de que tal regra seja a única capaz de beneficiar o maior número de pessoas. É importante considerar também a possível influência dos genes na manutenção das relações cordiais: um convívio pacífico e colaborativo com os semelhantes é um bom modo de tentar sobreviver e reproduzir-se.

==##==

A plateia aplaudia as considerações finais feitas por um dos debatedores. Era a vez de Alceu. Ele dirigiu-se ao púlpito e fez sua última exposição:

- Recentemente, encontrei Deus. Isso se deu nos últimos meses, ao longo de várias discussões que mantive, inclusive aqui, neste debate. Mas o Deus que tenho encontrado é o mesmo que encontrei várias vezes ao longo de minha vida. Controlador, manipulador, causador de intrigas e discriminador. Difusor da ignorância e indutor da cegueira. Uma ideia utilizada para preservar o comodismo e promover a intolerância. Um dos principais artifícios daqueles que pretendem transformar o mundo em quintal de suas convicções, independente dos anseios e características dos demais indivíduos. A humanidade precisa superar essa ideia e debruçar-se sobre questões realmente importantes, a fim de tentar alcançar o bem estar para todos ou, pelo menos, para o maior número possível de pessoas. Melhor ainda: para o maior número possível de seres vivos. Tal estágio nunca será alcançado por decreto ou imposição, e sim através de um processo gradual de melhoria da educação e das condições de vida da população. Vivemos um momento em que as pessoas acreditam em tudo o que leem na internet e veem na tevê, mas questionam grandes descobertas científicas apenas porque contrariam suas convicções. Isso evidencia um grave problema educacional. As pessoas não sabem o que é ciência. Desconhecem o rigoroso método de produção do saber científico. São levadas a pensar que um livro de ciências é semelhante a um livro religioso, no qual são apresentadas informações que não se sabe como teriam sido obtidas e que deveriam ser simplesmente aceitas. Em países como a Islândia, Dinamarca, Suécia, França, Grã-Bretanha, menos de quinze por cento da população rejeita a teoria da evolução das espécies. Em alguns desses países e outros mais, como a Noruega e a Finlândia, os ateus representam a maior parte da população. Com uma educação realmente boa, os indivíduos poderiam considerar uma gama muito mais ampla de informações e possibilidades ao tomar suas decisões, ao invés de ficarem à mercê de um conjunto limitante de crenças sem embasamento. Enquanto os humanos responsabilizarem os deuses pelos problemas que enfrentam, mesmo que devido à concessão do livre arbítrio a uma espécie imperfeita, nunca poderão levar adiante, pelas próprias mãos, um projeto de construção de uma sociedade próspera, sustentável e justa. Percebo que grande parte das religiões tem como característica o incentivo à aceitação das dificuldades, ao invés da luta contra elas, o que acaba por favorecer a conservação dos entraves. Muitas pessoas aceitam uma posição desconfortável porque são levadas a crer que uma ordem natural as mantém ali. Tenho a forte impressão de que grande parte dos problemas que enfrentamos - intolerância, discriminação, opressão, ignorância, violência, guerras, depressão, destruição dos recursos naturais, convívio difícil e desarmonioso - devem-se à grande quantidade de certezas infundadas espalhadas por todos os lados. Ações baseadas em certezas que não se justificam podem ser muito perigosas. Sempre que não houver um modo seguro de conhecer ou saber algo, aceitemos a dúvida e sintamo-nos estimulados a investigar. Nunca julguemos o comportamento de uma pessoa ou comunidade tendo como base apenas as próprias convicções. Vamos além: abandonemos as convicções e coloquemo-nos como dedicados discípulos da realidade. Desse modo, talvez possamos ver o surgimento de relações harmoniosas e de um entendimento agradável e benéfico entre todos.

Pausa. Boa parte do público mantinha-se atenta.

- Todos têm o direito de formar e manter suas próprias opiniões. E a sociedade está repleta dos mais diferentes pensamentos a respeito de todo e qualquer assunto. Com exceção de conceitos que terminem por causar ou estimular agressões e privações contra outros indivíduos, não há motivos para impedir ninguém de exercer sua liberdade individual. Muita gente enxerga um valor elevadíssimo nas convicções inabaláveis. Mas que vantagem há em, aos quarenta anos, bradar que possui as mesmas ideias que possuía aos vinte? A experiência da vida não vale nada? Pode mesmo um ser humano alcançar o conhecimento definitivo? Por que defender apaixonadamente os preceitos de determinada religião ou corrente, mesmo sabendo que não há um modo de comprovar que eles estejam absolutamente corretos?

Silêncio por mais alguns segundos.

- Sei que parece muito difícil à maioria das pessoas livrar-se de ideias tão reconfortantes. Mas acreditem que não é tão difícil e, após algum tempo, é recompensador. Minha experiência é muito positiva. Confesso que me senti abandonado e desprotegido no início, porém logo percebi que aquelas ideias não eram capazes de proteger-me de verdade. O erro não foi abandoná-las, e sim tê-las assumido em algum momento. Hoje valorizo a vida como poucos, pois, até onde sei, é a única que possuo. Deslumbro-me incansavelmente diante das belas estruturas do universo. Sinto um enorme desejo de permitir que todas as pessoas com boas intenções possam alcançar a felicidade, pois não vejo motivos para perseguir apenas a realização de meus anseios e entristece-me perceber o sofrimento de um semelhante. Descobri que a felicidade não é conquistada com a acumulação de bens, e sim com a possibilidade de desfrutar bons momentos próximo às pessoas de quem gosto, e sei que esta é a minha opinião e que outras pessoas encontram o prazer em outras coisas. Sinto-me seguro por estar em um ambiente propício ao surgimento e desenvolvimento de minha espécie e, ao mesmo tempo, preocupado com o que temos feito a esse ambiente. Aceito a morte como algo natural, tão natural quanto o longo processo que me trouxe à vida, e sei que, mesmo que ela represente o fim de minha consciência, continuarei a existir por algum tempo nas lembranças e nas minhas realizações, e as partículas físicas do meu corpo, cuja maior parte já se renova constantemente, continuarão a renovar-se em diferentes e inusitadas funções. Sofro, tenho medo e decepções? Sim, claro! Tudo isso faz parte da experiência de ser humano! Percebo, entretanto, que o que me move nessa direção é a preferência pela verdade, ao invés do consolo baseado em mentiras. Qual a melhor forma de viver a vida, se não a fundamentando na busca pela verdade? Não desejo que essa visão seja imposta, mas apenas difundida. Cada pessoa saberá aceitá-la no momento que lhe for mais propício. Isso é o que tenho a dizer. Duvidemos um pouco mais! Obrigado.

O público pôs-se a aplaudir. Muitos se levantaram e o fizeram de pé. Alceu sorria e fazia gestos de agradecimento quando uma forte luz atingiu seu rosto. Ele franziu a testa, incomodado pela claridade, apertou os olhos, deixando-os semiabertos, e ergueu um dos braços na altura deles, protegendo-os. Com dificuldade, tentava enxergar a fonte da iluminação. Após alguns segundos, percebeu que as incômodas luzes estavam instaladas do outro lado do auditório. Tinham sido acesas para facilitar a saída daqueles que já se retiravam. Os aplausos prosseguiram por mais algum tempo.

==##==

Na escuridão, os estranhos sons tornavam-se cada vez mais altos. Em alguns momentos, era possível ouvir perguntas.

- E se o universo tiver sido criado?

Surpreso, Alceu começou a sentir os dedos da mão, em seguida os braços. Após algum tempo, tinha a sensação de que possuía um corpo novamente. Parecia estar flutuando na posição horizontal, com a parte frontal do corpo voltada para baixo.

- E se a vida tiver um sentido?

Teve a impressão de estar se movendo, como se, aos poucos, ficasse de pé.

- Como ousa?

Uma forte luz atingiu seu rosto. Ele franziu a testa, incomodado pela claridade, apertou os olhos, deixando-os semiabertos, e ergueu um dos braços na altura deles, protegendo-os. Com dificuldade, tentava enxergar a fonte da iluminação. A luz aumentou rapidamente, envolvendo-o por completo.

Prólogo - Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI - Parte VII - Epílogo

16 de novembro de 2011

O ateu que encontrou Deus
- Parte VII: Apocalipse (É chegado o fim)


Prólogo - Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI - Parte VII - Epílogo

- O fato é que, se o “nada” tivesse existido, existiria ainda hoje, já que nada teria surgido dele. - discordou o bispo.

Alceu retrucou:

- Continuo achando muito estranha sua insistência em discorrer sobre o “nada absoluto”, um conceito de apreensão aparentemente fácil, porém difícil de ser aplicado sobre a realidade. O universo pode ser o todo. Pronto. É possível que não faça sentido que se fale em fora dele, antes dele, depois dele. A hipótese que estou apresentando agora se resume a isso: existe o todo, o qual chamamos de universo. O todo possui dimensões espaciais, uma dimensão temporal e, talvez, outras dimensões desconhecidas. Essas dimensões podem ser limitadas. Mas não é preciso supor que haja algo além dos extremos das dimensões. Ou seja, não é necessário conjecturar a respeito de um momento anterior ao todo. A dimensão temporal não deveria ser um empecilho para que se tome o universo como o todo, pois, da mesma forma que as demais dimensões, ela só existiria no universo, isto é, no todo, no que existe. Quando você diz que se o “nada” tivesse existido, existiria ainda hoje, ou que em algum momento teria existido o “nada”, está extrapolando a dimensão temporal do universo para fora dele. Isso talvez não faça muito sentido. Por que insiste em aplicar o conceito de causalidade entre um objeto não natural - Deus - e um objeto que é, simplesmente, toda a natureza?

- Por que existe algo ao invés de nada? - indagou o bispo.

- Não sei. - respondeu Alceu - E sei que você também não sabe, pois não dispomos de meios para obter uma resposta definitiva para este problema. Assumindo que eu não esteja sendo completamente enganado e que não esteja sonhando, posso dizer que sei que o universo existe porque estou inserido nele e consigo captá-lo com meus sentidos. Mas não sabemos por que ele existe. Não sei se o mundo sensível é ilusório ou não. E também não sei se existe ou não o transcendente. Você também não sabe, pois é impossível sabê-lo. O máximo que podemos fazer é formular algumas hipóteses.

- Alceu, creditar a Deus a criação do universo não é uma hipótese, e sim uma necessidade. É probabilisticamente impossível que algo como o universo venha a existir sem que uma mente esteja por trás da criação.

- Então também é probabilisticamente impossível que uma mente complexa, capaz de projetar e criar um universo, simplesmente exista, sem nenhuma explicação. Se uma mente assim pode simplesmente existir, então o universo também pode. Por isso, não há como defender como certa a existência desse ser primordial e absoluto. Se você pode aceitar que um ser assim existe sem ter sido planejado ou criado, então você é obrigado a aceitar que o universo pode existir sem planejamento e sem criação.

- Está dizendo que o universo pode ter surgido por acaso?

- Não é bem isso que estou dizendo, pois não sei o que o bispo pensa sobre o acaso. Mas, se não for apresentada uma explicação para a existência de um criador, também poderíamos dizer que ele existiria por acaso. Isso se assumíssemos sua existência, é claro. Se considerarmos que, no tempo, cada acontecimento é determinado pelos acontecimentos anteriores, veremos que não há lugar para a sorte. Existem modernas teorias científicas que discorrem sobre multiverso, dimensões paralelas e aleatoriedade real, mas não irei considerá-las agora, visto que, além de ainda não haver comprovação suficiente, tais entidades seriam, em princípio, inatingíveis a partir de nosso ponto de vista. Esta é uma fronteira sobre a qual a humanidade ainda pode avançar. Se fôssemos considerar o multiverso, poderíamos imaginar um cenário em que todos os universos possíveis existem, o que eliminaria qualquer alegação a respeito de improbabilidades. Mas podemos ignorar essas teorias por enquanto, sem prejuízo para a compreensão das ideias das quais estamos tratando. Não gosto das expressões “surgimento” ou “criação” em discussões sobre universo, pois elas costumam ser empregadas de modo a assumir que o universo foi criado ou surgiu em algum momento.

- Tudo que começa a existir foi causado. - afirmou Bispo João.

- Mas as causas estão todas no universo. - rebateu o arquiteto - Ao falar do universo inteiro, é diferente.

- Por que deveríamos levar em conta princípios básicos de causalidade para qualquer coisa, menos para o universo? - estranhou o bispo - O problema não é a lacuna no conhecimento. É a lógica!

- Sua afirmação, basicamente, é a de que o universo precisa ter sido causado por algo, pois tudo aquilo com o que lidamos foi causado por alguma coisa. Porém, uma causação do universo seria bem diferente das causações que conhecemos, pois estas são transformações de certas coisas em outras, e todas estariam dentro do universo. Portanto, já teríamos que lidar com algo diferente da causalidade que conhecemos. Seria preciso aceitar que as regras de causação do universo são diferentes das naturais. E, se podemos assumir regras diferentes para o problema da existência do universo, então por que se sente forçado a aplicar a regra da causalidade a este problema? Você está aceitando eliminar outras regras: materialidade, temporalidade, naturalidade, etc. Por que só não aceita eliminar a causalidade? Além disso, sua afirmação acaba não resolvendo o problema, pois, se tudo precisa ter sido causado, então aquilo que causou o universo também precisaria de uma causa.

- Materialidade e temporalidade são leis físicas. Se estou especulando sobre algo além do natural, sou obrigado a abandoná-las. Mas a causalidade é diferente, pois é uma lei lógica, e não apenas física. Posso supor um universo onde as leis físicas sejam diferentes, mas não um onde o resultado de dois mais dois seja diferente de quatro.

- A causalidade é um conceito lógico, mas, como qualquer outro conceito, foi elaborado a partir da observação da realidade. Caso os conceitos não fossem, de algum modo, baseados no real, não teríamos motivos para considerá-los. Se a causalidade fosse logicamente obrigatória, não haveria como escapar de uma regressão infinita, pois o ser superior também precisaria ter sido causado. Se ele pode existir sem causa, a causalidade lógica e obrigatória foi descartada. Para supor Deus, você eliminou a materialidade, a temporalidade, a naturalidade e acabou eliminando também a causalidade, pois o supôs como sendo algo sem causa.

Após uma breve pausa, Alceu continuou:

- Todas as causações físicas que conhecemos são, na verdade, transformações. Perceba que a passagem de tempo, isto é, a mudança de estados, é fundamental para a observação do encadeamento de causas e efeitos. Essa história de causalidade sem realidade não me convence. Causalidade é uma regra que observamos dentro do universo, isto é, onde há tempo. Você conseguiria apresentar um bom exemplo de uma causalidade estritamente lógica, sem nenhuma ligação com o mundo físico e a passagem de tempo? - perguntou Alceu.

- Uma operação matemática, como uma soma, um logaritmo ou uma integral.

- O conceito da soma só existe devido à possibilidade de contar e juntar entes reais. O conceito ainda mais básico de quantidade está estritamente relacionado à contagem de entes ou a medições de intensidade. O mesmo vale para as demais operações básicas e para todo o arcabouço de teoremas daí resultante. Todos eles descrevem a realidade e seus fenômenos físicos.

Bispo João fez uma pergunta:

- Você conhece a definição da palavra “causa”? Onde é que consta que os objetos só podem ser causados a partir de outros pré-existentes?

- Na realidade, bispo! Para chegar a conclusões seguras, devemos partir de observações da realidade e de raciocínios aplicados sobre tais observações, conforme discutimos no início da conversa. Se você constrói um relógio, ele passa a existir, mas seus componentes já existiam antes. A linguagem é um código definido pela humanidade para permitir a comunicação, mas as definições do código não servem como provas definitivas sobre fatos concretos, e sim como instrumento de comunicação de tais provas.

- Mas, e a lógica? O universo não pode ter criado a si mesmo, pois isso seria um paradoxo.

- E quando foi que eu disse que o universo teria criado a si mesmo? E o criador? Ele também teria criado si mesmo? Todas as regras lógicas e matemáticas, mesmo aquelas que aparentemente se sustentam sem a realidade física, foram elaboradas ou descobertas pelo homem a partir da observação da realidade. Os seres humanos só pensaram nos números porque tinham entes reais para contar. Quando somamos duas quantidades, estamos fazendo uma representação de algo que ocorre no mundo físico. E as complexas equações, leis e regras matemáticas que hoje conhecemos foram sendo desenvolvidas sobre essa base. A causalidade também foi inicialmente observada empiricamente: os homens a perceberam através da passagem do tempo. A lógica e a matemática são algumas das ferramentas desenvolvidas pela humanidade para compreender a natureza. Mas não existem paradoxos na natureza. Os paradoxos surgem apenas quando você tenta usar essas ferramentas sem aplicá-las sobre a base a partir da qual surgiram, isto é, a realidade. Numa lógica sem realidade, você pode dizer que uma reta pode ser infinitamente dividida, pois podemos dividi-la ao meio, e cada metade também pode ser dividida, e assim por diante. No mundo real, no entanto, isso não acontece.

- Alceu, se uma explicação sobre algo é suficiente, não é preciso fornecer uma explicação sobre a explicação. Se o ato de Deus explica e é necessário para a criação do universo, não é preciso provar nada sobre ele. Mas é necessário que ele não tenha sido causado, para que não haja a regressão infinita.

- E esse raciocínio simplista lhe dá a certeza de que existe um Deus pessoal a ser respeitado? Bispo, uma explicação só é válida se resolver o problema ou, pelo menos, permitir um aprofundamento do estudo! Um universo que existe independente de qualquer outra coisa também evita que haja regressão infinita. Além disso, seu comentário deu a entender que, se há uma explicação suficiente, não há motivos para ficar confabulando a respeito de explicações mais complexas e intangíveis.

- Sim, com isso eu concordo. - o bispo confirmou.

- Pois então! - retomou Alceu - Um criador pessoal e inteligente, que existe sem maiores explicações, está bem mais distante da realidade do que um universo que existe sem maiores explicações. É bem mais aceitável supor um universo que simplesmente existe do que supor um criador que simplesmente existe e que foi capaz de projetar e criar o universo. O criador é desnecessário. Ao invés de postular um ser fantástico, imaterial, atemporal, não natural, diferente de tudo o que podemos perceber na realidade, e que simplesmente existe, sem maiores explicações, você pode postular um universo fantástico, real, que está bem diante de seus olhos, e que simplesmente existe, tal qual o suposto criador. E nem precisamos lidar com imaterialidade, atemporalidade, nem com um ser que cria ou organiza matéria e tempo num passe de mágica. Ficamos apenas com conceitos que observamos na realidade. Não estou dizendo que dominamos ou que temos conhecimento total da realidade e nem que teremos esse conhecimento algum dia, e sim que é impossível afirmar com certeza que existe um criador.

- Como pode ter tanta certeza a respeito de suas afirmações?

- Não tenho certeza, bispo. Você sabe que o que proponho é que não se tome como verdade aquilo que não pode ser comprovado. Estou apenas apresentando hipóteses. O que peço ao bispo é que não abandone os princípios com os quais concordamos. Estamos alinhados sobre o espaço-tempo ser uma característica do universo. E tempo e espaço estão intrinsecamente relacionados, de acordo com a teoria da relatividade. Você pode até supor a existência de tempo antes do Big Bang, mas não pode ter certeza alguma sobre isso.

- Algo temporal e limitado não pode ser o todo.

- Para que algo seja o todo, não é necessário que seja infinito. - argumentou Alceu - Para que um objeto seja o todo, basta que ele seja tudo o que existe, ou seja, basta que não exista nada além dele.

- Como o universo veio à existência? - questionou Bispo João.

- Em termos temporais, pode ser que o universo não tenha vindo à existência. Se não há um tempo absoluto e externo, então não há uma linha temporal na qual o universo não existia e depois passou a existir. - respondeu Alceu - Talvez não haja espaço fora do universo. Logo, ele não ocuparia um espaço externo enquanto se expande. E seria uma insanidade a tentativa de determinar a localização do universo, visto que não haveria um espaço no qual localizá-lo. Do mesmo modo que pode não haver um espaço externo, também pode não existir um tempo externo. Os dois tipos de limitação são muito parecidos. Perguntar “onde está o universo?” seria tão absurdo quanto perguntar “o que aconteceu dez minutos antes do início do universo?” ou “quando o universo começou?”. Você pode até pensar que a última pergunta faça sentido. Afinal, dentro do universo, podemos tomar como referencial um momento próximo ao Big Bang, compará-lo com o momento presente e dizer que ele começou há cerca de quatorze bilhões de anos. Mas é um referencial interno, como não poderia deixar de ser. Todas as referências espaciais que você faz utilizam pontos do universo. Você diz, por exemplo, que aquele vaso está a dez metros de distância daquela cadeira. - articulou Alceu, apontando para um vaso no canto da sala - Você nunca tenta referenciar um ponto espacial fora do universo. Com o tempo é a mesma coisa: todos os referenciais estariam no universo. Dizemos, por exemplo, que determinada apresentação terminou há uma hora. Não há como haver transição de “sem tempo” para “com tempo”, por um motivo muito simples: uma transição é um evento temporal e, portanto, necessita de tempo antes e depois dela. Na verdade, para haver transição, é preciso que haja antes e depois. Só que, neste caso, aparentemente, não há antes. Em que tempo a dimensão temporal não existia, se ela é o próprio tempo?

- Alceu, você está dizendo que todos os eventos, passados e futuros, estão sempre presentes? Por que, então, eu tenho a impressão de que estamos exatamente neste momento do tempo, no qual estamos discutindo nesta sala?

- Bispo, eu não disse isso. Pense da seguinte maneira: não são os momentos que estão sempre presentes, e sim a dimensão temporal. Para facilitar, ignoremos, por ora, as deformações do espaço-tempo. A matéria contida no universo pode deslocar-se através das dimensões espaciais em diferentes sentidos, mas se desloca em um único sentido na dimensão temporal. Sua consciência está percebendo o presente momento devido à sua localização ao longo de cada uma das dimensões espaciais e da dimensão temporal.

O bispo franziu a testa, mas Alceu prosseguiu:

- Pense no universo por inteiro. Os objetos contidos nele não são criados e nem surgem. O que temos, na verdade, é a matéria e a energia em constante transformação e movimentação. Ao invés de considerar cada objeto individualmente, considere o maior objeto de todos: o próprio universo. Com base nisso, perceba que é inválida a conclusão de que todo objeto precisa ter sido causado, pois ela é resultado de uma observação parcial e incompleta do todo. Por que o único objeto que conhecemos precisa ter sido criado por um outro objeto? Não conhecemos nenhum exemplo real de criação! Há apenas transformação!

Após uns poucos segundos de reflexão, o bispo perguntou:

- O que estou defendendo é tão ilógico?

- É um tanto ilógico, pois não conhecemos nada na natureza que se pareça com isso. Mas o mais importante é que é desnecessário. - respondeu Alceu.

- Alceu, começo a compreender seu raciocínio. Mas a hipótese do criador também é válida, não é?

- Você quer supor um ser inteligente, dotado de intenções, que vive além da natureza, imaterial, mas capaz de gerar matéria, atemporal, mas capaz de criar tempo, que define regras para que sigamos e que se preocupa com o que fazemos? Tudo bem, tudo bem. Mas quer mesmo levar essa suposição tão a sério e viver como se este ser fantástico, saído de suas conclusões, realmente estivesse lá, com sua natureza diferente de tudo o que conhecemos? Não vê absurdos em nenhum detalhe dessa suposição tão alheia à realidade? Considere algumas perguntas. Por que Deus teria definido regras? Por algum capricho? No fim das contas, que diferença há entre criar um universo e ditar regras para seus habitantes e não criar universo algum? Tem me parecido loucura você dizer que leva a sério a suposta existência de um ser superior baseado em raciocínios sobre conceitos tão abstratos. Esforço-me para achar essa hipótese ao menos razoável. Por isso, espanto-me quando você dá a entender que a toma como verdadeira. O bispo sabe que pode estar errado. E eu sei que posso não estar certo. Mas perceba que muitas pessoas usam conclusões não definitivas sobre uma suposta realidade sobrenatural para defender preconceitos e tentar limitar a vida alheia.

- Não tomo os conceitos que defendo como verdade absoluta, mas considero-os plausíveis. - justificou-se o bispo.

- Sinto-me na obrigação de ressaltar que estamos aqui nos referindo à realidade, porém limitados pela linguagem e pela incapacidade de apreensão completa de certos conceitos. Falamos com aparente facilidade a respeito de considerações um tanto alusivas, mas sabemos bem que isso resulta, no máximo, em um tipo de representação, que nos permite pensar sobre tudo o que nos cerca, porém está longe de nos fornecer certezas. Neste momento, estou apelando para a sanidade. Em momento algum você afirmou ter certeza de que está com a razão, e exatamente por isso considero-lhe um bom debatedor, principalmente se levarmos em consideração a natureza do presente diálogo. Não nos esqueçamos de que estamos discutindo um assunto que extrapola o conhecimento de toda a humanidade. Com criatividade e bons conhecimentos de lógica e ciência, podemos formular dezenas de hipóteses para o problema da existência do universo. No entanto, não há meios para testar e comprovar nenhuma delas. Aceito bem quando você diz que considera sua hipótese plausível. Mas se você dissesse que essa hipótese está mais próxima à realidade do que qualquer outra, então eu ficaria um pouco assustado, pois está supondo coisas pouco concretas, sem apresentar um embasamento suficientemente forte.

- De fato, o tema é de difícil apreensão, mas as hipóteses devem ser formuladas e sua plausibilidade discutida. O objetivo não é encerrar a questão, e sim identificar o que pode ser verdadeiro e o que é falso.

- Bispo, não acho apenas difícil chegar a conclusões confiáveis com base em uma lógica que abarque conceitos abstratos e metafísicos. Acho impossível. Isso não significa que vou parar de investigar e de incentivar a evolução do conhecimento. É claro que existem muitas coisas fascinantes e desconhecidas. Mas devemos ter consciência de que estamos raciocinando sobre abstrações. Levando ao extremo, arrisco-me a afirmar que, mesmo que alguém apresentasse uma argumentação lógica consistente a favor da existência de um ser superior, ainda assim seria seguro manter uma dose de dúvida, pois as regras e conceitos lógicos são elaborados a partir de nossa observação e conhecimento limitados. E isso vale para todas as demais conclusões. A lógica, tal qual a definimos e utilizamos, e que considero essencial, nasceu de uma estrutura físico-química limitada, o nosso cérebro, que está estruturado mais para permitir a sobrevivência do que o perfeito entendimento do todo. As limitações desse tipo de estratégia tornam-se ainda mais evidentes quando nos damos conta de que, além de simples regras lógicas, estamos lidando com conceitos representativos. Neste problema, estamos muito distantes de uma argumentação capaz de eliminar todas as demais alternativas.

- Conversas como essa servem, particularmente, para colocar minhas crenças à prova, aferi-las, aprimorá-las, substituí-las ou rejeitá-las. - disse o bispo - Busco discutir à exaustão para equacionar os pontos divergentes.

- Entendo e concordo. - sinalizou Alceu - Independente das classificações da lógica clássica, distingo, grosso modo, dois tipos de lógica. Um mais exato, atrelado à matemática ou aplicado sobre eventos bem conhecidos, com o qual tive algum contato durante minha formação em arquitetura. É o que costumam chamar de lógica formal. O outro tipo é mais humano, mais representativo. Com esse tipo tomei contato em minha pós-graduação em áreas da filosofia. Ele inclui abstrações como estas que estamos utilizando. Está mais próximo do que chamam de lógica filosófica ou epistêmica. É este segundo tipo que estamos utilizando aqui.

Naquele exato momento, os dois ouviram alguns sons vindos do lado de fora da sala. Parecia que o assistente estava limpando o piso. Alceu prosseguiu:

- Lógica, filosofia, teologia, história, ciências em geral... Todas as disciplinas servem para organizar o conhecimento acumulado pela humanidade. Mas nenhuma delas é independente da observação e do estudo da realidade. A filosofia surgiu dessa observação e das dúvidas por ela suscitadas. As bases da ciência estão na filosofia. E esta se transforma no decorrer no tempo, justamente porque o conhecimento da humanidade também se transforma, pois se torna cada vez maior, graças às ciências e sua contínua observação e estudo da realidade. Sempre ouço alguém a dizer que o problema da existência de Deus cabe à filosofia ou à teologia, e não à ciência, mas isso é de uma estupidez tremenda, pois todas as disciplinas do conhecimento são indissociáveis e partem da mesma base, que é a realidade. Geologia, matemática, astronomia, química, enfim... Todas têm seus microscópios, telescópios e olhares apontados para a realidade. A única diferença é que cada uma delas procura focalizar uma porção do todo, mas com sobreposições e interseções enormes. Nenhum aspecto da realidade está fora do escopo da ciência. É claro que ela não consegue alcançar tudo o que há para ser conhecido, mas é seu objetivo conseguir. Suposições como essas das quais tratamos podem até servir de base para um processo de investigação e descoberta, desde que combinadas a métodos mais razoáveis e criteriosos. Afinal, elas se encontram em um campo mais especulativo do que propriamente científico. Para não ser mal interpretado, registro que a lógica, enquanto parte essencial da ciência, é um instrumento indispensável à construção do conhecimento e ao desenvolvimento da tecnologia. E é claro que existem inúmeros fenômenos fantásticos ainda não compreendidos pelo homem. Experiências não devem ser descartadas ou relegadas à insignificância apenas porque ainda não puderam ser estudadas ou avaliadas com a devida profundidade. Talvez nem tudo possa ser colocado algum dia nos moldes de nossas atuais metodologias. O tempo nos dirá. Porém, quando você coloca objetos atemporais e imateriais em sua argumentação, está utilizando recursos que lhe permitem, em tese, resolver absurdos e paradoxos, mas mesmo estes dois últimos são conceitos elaborados por humanos, e nada disso atesta a existência de entidades além do escopo no qual somos capazes de atuar. A simples suposição de algo além da natureza, não físico, é um grande passo no desconhecido. Quando estamos fazendo suposições sobre o que não conhecemos, podemos até apresentar hipóteses alternativas entre si, porém sem contradições e paradoxos aparentes. Afinal, formular hipóteses sobre o desconhecido não o torna conhecido.

- Compreendo, compreendo. Mas não posso deixar de notar que minha vida é um verdadeiro milagre. - observou o bispo - Nasci em meio ao caos e trilhei caminhos tortuosos até a juventude. Tinha tudo para dar errado. Por isso, reconheço a presença de uma força maior em minha vida.

- O bispo já deve ser capaz de intuir minha opinião a respeito desse assunto. Sabemos bem que coisas boas e ruins acontecem às pessoas, por mérito delas ou devido a fatores externos. Algumas têm mais sorte do que outras, é claro, pois não há nada para dividir o bom e o ruim de modo igualitário entre todos. Se a sorte fosse igualmente distribuída, aí sim teríamos motivos para suspeitar da existência de um ser organizador. - ponderou Alceu - Olhe ao redor. As leis físicas não são desrespeitadas e cada acontecimento parece ser determinado por aquilo que ocorreu anteriormente. O bispo deveria orgulhar-se de ter conseguido mudar os rumos da própria vida. E deveria também reconhecer os seus méritos.

- Alceu, creio que consegui captar bem o seu ponto de vista, mas farei mais algumas poucas perguntas antes de encerrarmos esta discussão. O que você me diz a respeito das consequências de viver sem crer em Deus?

- Bispo João, se quiser defender o teísmo com base nos benefícios que podem advir da crença ou como forma de controle social, fique à vontade, mas ressaltemos que seria uma discussão completamente distinta. Aqui estamos discutindo a respeito da existência de Deus. O interesse é concluir se ele existe e se há como chegar a alguma certeza.

- Você deseja que todos se tornem ateus?

- Gostaria que a humanidade fosse mais tolerante, mais criteriosa em sua busca pela verdade e que respeitasse mais a individualidade de cada ser humano. É claro que, pessoalmente, não tenho nada contra os teístas. Parece-me, infelizmente, que muitas pessoas só fazem boas ações sob influência das religiões. Se você deseja manter a crença em um ser não natural que possui inteligência e intenções, eu irei achar estranho, mas é um direito seu. Se você disser que esse ser nos ama, nos observa e nos julga, com base em regras definidas por ele mesmo, irei achar ainda mais estranho, mas é seu direito também. Agora, se você passar a discriminar ou tentar limitar a vida de outras pessoas com base nessas crenças, isto é, com base em suposições a respeito das quais não podemos ter certeza, aí eu ficarei preocupado. Sim, é isso que me incomoda: a falta de respeito por aqueles que pensam e agem de modo diferente.

- Você tem bons argumentos, Alceu, mas ainda não consigo aceitar a totalidade desse pensamento.

- Sua relutância não me surpreende, bispo. Afinal, estamos lidando com as crenças de toda uma vida. Espero que possamos conversar mais vezes.

Bispo João conduziu Alceu até a porta da sala. Assim que ela foi aberta, pôde-se ver o assistente a limpar o piso, próximo à escada que levava ao saguão. Despediram-se e, dali, Alceu seguiu sozinho. O bispo estava pensativo, com uma das mãos apoiada sobre a maçaneta. Mas sua atenção foi repentinamente atraída por ruídos vindos da escada. Alceu havia rolado doze degraus abaixo, após deslizar acidentalmente no piso escorregadio. O assistente desceu correndo. O bispo foi logo atrás.

O corpo de Alceu estava inerte no chão. Uma mancha vermelha formou-se no carpete, sob sua cabeça.


28 de julho de 2011

O ateu que encontrou Deus
- Parte VI: Lamentações (O fim está próximo)


Prólogo - Parte I - Parte II - Parte III - Parte IV - Parte V - Parte VI - Parte VII - Epílogo

João nasceu em uma família carente de recursos. Desamparado, viveu com a mãe, solteira e alcoólatra, até por volta dos onze anos de idade, quando trocou o pequeno barraco pelas ruas do centro da cidade. Praticava pequenos furtos e assaltos. Aos quatorze, foi pego pela polícia e encaminhado a uma instituição de apoio e recuperação de menores delinquentes. Ali teve contato com o cristianismo, através de um programa da igreja que enviava representantes para dialogar com os jovens. Sempre fechado, porém interessado, acabou sendo acolhido pela ordem religiosa. Muito tempo passou-se até que se tornasse bispo. De fisionomia firme e cerrada, falava pouco, mas tratava muito bem aqueles com quem se relacionava, desde que não o irritassem, pois, nessas ocasiões, mostrava que a firmeza não estava apenas no semblante.

Naquele dia, o assistente adentrou a sala e avisou que havia chegado um visitante. O bispo autorizou a entrada, pois o encontro já estava marcado. Era Alceu. Sem muita delonga, o religioso expôs sua intenção, assim que ambos acomodaram-se:

- Meu caro Alceu, irei tratar de um assunto um tanto delicado, mas espero que compreenda. Como você já sabe, o Papa visitará o país em poucas semanas. Há grandes chances de que ele passe aqui pela região, devido à presença de duas cidades que são verdadeiras referências para os devotos. Eu sou, inclusive, integrante da comitiva que organiza os preparativos, o que me deixa sobremaneira orgulhoso. Mas há algo a incomodar-me. Trata-se do tal debate na universidade, no qual tratarão da religiosidade e do ateísmo. Ele será realizado em uma data muito próxima à da passagem do Santo Padre, o que poderia criar uma imagem negativa da região frente aos ilustres visitantes e à imprensa. Gostaria muito que vocês verificassem a possibilidade de adiar o evento.

Alceu informou:

- Entendo suas preocupações, Bispo João, mas, apesar de minha participação, não faço parte do comitê organizador. Prometo que levarei sua solicitação aos responsáveis. Acho difícil uma alteração, pois a visita do pontífice deve ter sido a motivação para a promoção do debate. Mas aproveito para tranquilizá-lo: não creio que o evento seja capaz de gerar tanto impacto. Um público muito restrito deverá interessar-se.

O bispo passou a exibir um semblante mais leve.

- Agradeço desde já pelo esforço que desprenderá, Alceu. Tentarei contatar um dos organizadores na universidade, a fim de aumentar as chances de obter algum êxito. Mas há algo que ainda me intriga. - continuou o bispo - Sobre que bases sustenta sua postura de não crer na existência de Deus? Possuo formação em filosofia e teologia e defendo a existência do criador de um modo lógico e racional, independente até da religião que professo, pois o teísmo não precisa, necessariamente, de crenças religiosas.

- O bispo não irá repetir os clássicos argumentos teológicos e filosóficos, não é?

- Não, não. Você já deve estar farto deles. Mas como você prova que Deus não existe?

- Na verdade, bispo, é impossível demonstrar a inexistência de certas coisas, como a das fadas. Minha postura não se baseia nesse tipo de prova e nem em fé, como a de muitos teístas. A base do meu pensamento é, na verdade, uma tentativa de manter a coerência diante daquilo que conheço e que posso perceber. No caso de Deus, apenas não vejo motivos para tomar sua existência como verdadeira, frente à completa ausência de provas a respeito.

- Como demonstra que sua postura não se baseia em um tipo de fé?

- Não costumo manter certezas absolutas. Percebo apenas que há coisas observáveis, demonstráveis, e outras não. Com base nisso, é possível retirar conclusões a respeito do que pode ser verdadeiro. Tenho plena consciência, no entanto, de que é bem provável que nunca deteremos alguma verdade plena, talvez com exceção de conceitos como os teoremas matemáticos, por exemplo.

- Você confia cegamente na ciência?

- É claro que não. Nem afirmo que a ciência encontrará mais respostas. Apenas suponho que irá encontrá-las, baseado no fato de que as está encontrando dia após dia. Se, no entanto, suas descobertas cessarem, este não será um motivo para inventar explicações. Também suponho que o sol nascerá amanhã, baseado naquilo que posso conhecer. Suposições feitas a partir de fatos observados não configuram fé. Mas são apenas suposições e assim devem ser encaradas. Não podemos nos esquecer de todos os benefícios que a ciência nos proporciona em suas diversas áreas de atuação e que tornam nossas vidas mais fáceis e confortáveis: física, química, mecânica, eletrônica, robótica, aeronáutica, história, matemática, estatística, geologia, medicina, entre tantas outras. E recordemo-nos também do enorme atraso imposto pela religião ao progresso do conhecimento ao longo dos séculos, apesar das figuras dos religiosos cientistas. A ciência não é detentora da verdade, mas sim de um método relativamente confiável que permite a constante revisão, ampliação e refinamento do conhecimento. O que considero um problema é o ato de inventar explicações e tomá-las por verdade.

- Mas cada indivíduo possui sua própria verdade. Você não conhece as percepções e sensações das outras pessoas.

- Concordo. E as verdades pessoais não me preocupam. - explicou Alceu - O que não posso aceitar é que alguém utilize suas próprias percepções para tentar interferir na vida de outras pessoas, muitas vezes contra a vontade delas. Entenda que não estou negando a necessidade das interações sociais. Afinal, a vida em sociedade só é possível graças a um contrato estabelecido entre seus indivíduos. A interferência nociva a que me refiro aqui é aquela que se dá através dos preconceitos ou das tentativas de limitar o comportamento e os direitos daqueles que pensam e agem de um modo diferente. Todos têm o direito de expressar suas opiniões, mas só podemos aceitar que afetem o contrato social se possuírem suficiente embasamento e não forem simples resultado de crendices. Uma verdadeira democracia respeita as decisões da maioria, sem restringir os direitos de qualquer grupo minoritário, isto é, sem tornar-se uma "ditadura da maioria". Imagine se a maioria pudesse optar “democraticamente” pelo extermínio de determinada minoria ou pela restrição dos direitos de algum grupo. Seria um regime democrático ou fascista? Até pouco tempo, nos Estados Unidos, os negros eram obrigados a utilizar banheiros públicos separados. Em todo o mundo, as mulheres não tinham direito ao voto. Não há como negar que tão melhor será uma democracia quanto mais educado e esclarecido for o seu povo. Se fôssemos obrigados a aceitar a fé e as verdades pessoais como justificativas para as ações que afetam outras pessoas, não poderíamos condenar um terrorista que apresentasse tais artifícios como motivação para suas atrocidades. O mais importante, entretanto, é que os teístas que se dizem mais racionais, como você, dificilmente defendem seu posicionamento com base em verdades pessoais. Geralmente, partem da mesma base que eu, isto é, a lógica e o conhecimento científico, porém chegam a conclusões diferentes, utilizando raciocínios que considero inválidos, como procuro demonstrar.

- Permita-me uma pequena provocação, Alceu. Não lhe parece que você tem certeza de que não deve ter certezas? Como fundamentar esta certeza? E, no fim das contas, não está fazendo um apelo à ignorância, idolatrando o ceticismo para defender o ateísmo?

- Reconhecer claramente o que conhecemos, admitir o que desconhecemos, não parar de buscar respostas por métodos que possuam um bom grau de confiabilidade, não inventar respostas para as perguntas que não conseguimos responder... Tudo isso está muito longe de um apelo à ignorância. Trata-se uma postura, no mínimo, coerente. O ateísmo não é a causa do meu ceticismo, isto é, não busco o ceticismo para justificar o ateísmo. Na verdade, o ceticismo é que veio primeiro. Acreditar não é algo que se escolhe: você acredita em algo com base no que observa e conhece. Não há como decidir acreditar. O máximo que você pode fazer é mentir sobre o próprio pensamento, para os outros e para si mesmo, ao fingir que acredita ou que não acredita. Essa tentativa de transformar a postura coerente de duvidar daquilo do que não posso ter certeza em uma espécie de certeza da dúvida é um tanto insana. Duvido porque não tenho certeza. Defendo que devemos agir de acordo com as informações a respeito das quais podemos ter um bom grau de confiança e tomar muita cautela diante do que não é possível conhecer ou concluir com alguma segurança. É perigoso lidar com problemas reais baseando-se em conclusões pouco embasadas. Não tenho certeza da dúvida. O que tenho são, simplesmente, dúvidas.

- A ciência pode conseguir mostrar como as coisas acontecem - registrou o bispo - mas não é capaz de provar que não existe uma realidade sobrenatural. Isso é uma questão filosófica. Você não consegue demonstrar, nem mesmo empiricamente, que o empirismo, isto é, a experimentação, é o único modo de se obter um conhecimento válido.

- O cérebro, aliado aos sentidos, que captam os dados externos, é a estrutura que nos permite conhecer aquilo que chamamos de “realidade”. - declarou Alceu - Mas não há motivos para supor que essa estrutura permita que apreendamos com perfeição as informações. O que sabemos, na verdade, é que o cérebro possui falhas e está suscetível a lapsos, traumas e desvios. Nossos sentidos também são falhos, causam ilusões perceptivas e nem são os melhores que existem. Há outros animais com sentidos diferentes e até mais apurados, capazes de perceber a realidade de outra maneira. Alguns podem enxergar a luz ultravioleta, por exemplo. Com a evolução científica, a humanidade ampliou sua capacidade de captar informações, utilizando máquinas, instrumentos e sensores. Tudo o que conhecemos é apreendido através desse aparato natural e tecnológico. É a partir disso que formulamos nossos pressupostos e axiomas básicos. Assumimos que existimos, pois nos captamos inseridos em um meio junto a outros indivíduos, os quais também presumimos existir. Também assumimos que o que captamos pelos sentidos é a realidade, tendo sempre em mente que eles ou o cérebro podem falhar e causar enganos. Se relativizássemos ao extremo e assumíssemos que tudo é um grande engano e que não devemos considerar nem esses pressupostos básicos, então não haveria razão para prosseguirmos nesta conversa, pois estaríamos aceitando que todas as pessoas pudessem tomar qualquer devaneio como verdade, transformando a vida em sociedade em um caos inimaginável, bem maior do que já é. Sabemos que todos são livres para agir desse modo irracional, mas, se vamos aceitar ou não esse comportamento, isso dependerá do tipo de sociedade em que queremos viver.

- Em que tipo de sociedade você quer viver?

- Em um tipo que respeita a individualidade e a liberdade de cada um de seus integrantes. Uma sociedade na qual os direitos de um indivíduo não poderiam ser limitados devido a simples opiniões de outros. O que proponho está longe de um modelo de total permissividade. É claro que existiriam limites: eles estariam, principalmente, no respeito aos direitos de cada um. O direito às condições para um sono adequado, por exemplo, é que gera o dever de respeitar o silêncio após determinado horário. Mas as restrições e proibições deveriam estar amparadas por conhecimentos suficientemente embasados. Crenças religiosas não fazem parte desse tipo de conhecimento, pois se baseiam em suposições não comprovadas e, muitas vezes, não comprováveis. O que considero muito positivo é que nossa forma de organização social já é muito semelhante a esta que descrevi. A coisa mais importante que devemos fazer é preservar essas características e coibir os impulsos daqueles que desejam subjugar a realidade a seus desejos e caprichos.

- A existência de Deus pode ser algo evidente para a pessoa que nele crê. Tão evidente quanto a própria existência. - observou o bispo.

- Lamento, bispo, mas não há como aceitar que tal ideia seja evidente. Já vi muitas pessoas tentarem colocar a questão dessa forma, querendo fazer parecer que o ônus da prova cabe ao ateu, como se este fosse o autor da contestação ou da afirmação que desafia o óbvio. Isso é uma distorção tremenda, pois quem contesta o óbvio é aquele que afirma a existência do sobrenatural. Podemos identificar claramente os níveis das conclusões ao longo do processo de formação do conhecimento. Uma criança percebe a existência das entidades materiais que a rodeiam. Através da repetição, começa a apreender diversas noções, como a de causalidade. Percebe, por exemplo, que, toda vez que empurrar um objeto leve, este irá deslocar-se. Mas mesmo essa simples conclusão já se encontra em um nível mais alto do que a mera percepção do ambiente. A capacidade de classificar e agrupar os objetos também é de um nível superior. A afirmação da existência do sobrenatural e de divindades está em um nível ainda mais alto, pois necessita de um raciocínio mais elaborado. Ateus e teístas, em um nível mais básico, percebem a realidade praticamente do mesmo modo. Dificilmente vejo um teísta a apresentar informações que tenha captado através de um meio diferente daqueles de que disponho. Portanto, para defender como verdadeiras suas afirmações, o teísta precisa demonstrar claramente como chegou a suas conclusões a partir da realidade por ele conhecida, que, na maior parte dos casos, é a mesma realidade conhecida por um ateu. Este último, a princípio, não necessita demonstrar nada nesse sentido, pois não está fazendo afirmações que ultrapassem a realidade percebida. No entanto, frente à afirmação do teísta, surge, para o ateu, a necessidade de demover o crente de sua iniciativa de tomar como evidente algo que não é. Para isso, um ateu dogmático deve mostrar como concluiu que divindades não existem, enquanto um ateu cético, como eu, só precisa mostrar que não há motivos para considerar verdadeira a existência do sobrenatural.

- Em uma discussão filosófica, o sobrenatural pode ser aceito.

- Pode ser aceito enquanto hipótese, mas nunca demonstrado como verdade. De que tipo de filosofia está falando? A filosofia é e sempre foi muito importante para a ciência e para o desenvolvimento do conhecimento. O bispo sabe que valorizo essa disciplina ao extremo, pois também possuo formação na área. Mas ela evoluiu com o passar do tempo, juntamente com a ciência. Suposições a respeito do sobrenatural, hoje em dia, não possuem mais o peso que possuíam há mais de dois mil anos, quando Aristóteles fazia a metafísica dar seus primeiros grandes passos. Tenho percebido uma tentativa de refúgio na filosofia e na teologia por parte dos teístas, mas essas disciplinas não eliminam a necessidade do método científico e de uma utilização sensata da lógica para a construção de um saber minimamente confiável. Podemos conjecturar sobre possibilidades, desde que as encaremos como tal. A simples discussão filosófica, sem se apoiar em uma base científica, isto é, sem recorrer a uma base de conhecimentos que consideremos segura, não é capaz de chegar à confirmação do sobrenatural e nem à sua negação, e isso se aplica a toda a gama de possíveis suposições. É claro que não existem métodos totalmente confiáveis. Nem nossos sentidos o são. O que temos é uma padronização, que seguimos testando, revisando e aperfeiçoando. Sem contar que sabemos muito bem identificar métodos não confiáveis, como visões durante o sono ou estados de consciência alterados, relatos distantes de milagres ou a aceitação incondicional de algo que está escrito em um livro milenar.

- Com uma postura tão cética, como você conclui que o ateísmo está mais próximo da verdade que o teísmo? - perguntou o bispo.

- A postura de manter uma dúvida racional e buscar por respostas, sem aceitar pressuposições não embasadas, pode aproximar-lhe da verdade, seja ela qual for. Porém, se você tiver começado assumindo algo como verdade, como fazem muitos teístas, terá se aproximado apenas daquilo que assumiu, passando ao largo de todas as demais possibilidades que poderiam ser verdadeiras.

- Acontece que muitos teístas, mais moderados, não partem do pressuposto de que Deus existe. Eles chegam à conclusão sobre sua existência através de argumentos racionais.

- Bispo João, ao longo de tantos anos tratando deste assunto, ainda não fui apresentado a nenhum argumento convincente. Por isso, continuo sem motivos para acreditar na existência de Deus. - expôs Alceu - Nasci sem crenças, obviamente. Em diversos momentos de minha vida, foram-me apresentadas hipóteses a respeito do problema da existência do universo e de outros problemas não resolvidos pela humanidade. Em outros momentos, formulei minhas próprias. Várias dessas hipóteses foram satisfatoriamente testadas por experimentos. Outras ficaram à mercê de argumentações incapazes de fornecer-me alguma certeza ou de convencer-me a levá-las mais a sério do que outras hipóteses. Tenho certezas sobre o suposto surgimento do universo? Não. E acho que boa parte dos teístas moderados também não tem certezas sobre a existência de Deus. Tenho certeza de que Deus não existe? Não, pois existe uma grande possibilidade de que muitas coisas desconhecidas existam. A probabilidade da existência do Deus dos cristãos é alta? Não me parece, pois, frente às dezenas de hipóteses que podemos formular, essa é apenas mais uma. Através de registros históricos, já podemos estudar as origens e a evolução das mitologias e crenças ao longo da história da humanidade. Lembre-se do que eu disse sobre a percepção da realidade e sobre o que realmente pode ser considerado evidente. E quanto ao Deus pessoal, que nos observa, ouve, julga e ama? Ora, aqui a probabilidade é ainda menor, pois estamos especificando demais, sem critério algum. Frente a isso, devo viver como se essa entidade existisse ou como se não existisse? Minha resposta é que devo viver de modo indiferente a essa questão. É importante lembrar que muitos teístas que se dizem moderados costumam incentivar o teísmo fundamentalista de outras pessoas, sem nenhum peso na consciência.

- Alceu, explicar as origens de uma crença não invalida o objeto dessa crença.

- Quando o objeto da crença não pode ser comprovado, explicar a origem da crença colabora com a aceitação de que ela pode não passar de um engano. Conforme eu já disse, ainda não vi, até hoje, uma confirmação para o objeto da crença da qual estamos tratando, e conheço motivos, os quais estou mostrando aqui, para pensar que é bastante improvável que cheguemos a essa confirmação. Entender as origens da crença, então, ajuda a desacreditar ainda mais o seu objeto.

- Pelo que estou entendendo, você encara a existência de Deus como mera hipótese.

- Por que motivos eu deveria encará-la de outro modo? Não foi o bispo quem disse que sua postura é baseada na razão? Podemos formular várias hipóteses para a questão do universo, e muitas já foram formuladas. A hipótese da existência de um criador só existe porque foi formulada em algum momento, ora! Como não é possível testar objetivamente nenhuma delas, não posso negar esta hipótese em específico, bem como nenhuma outra. Como ter certeza de que esta não é uma simples hipótese, mas a verdade absoluta? Sinceramente, não entendo como vocês consideram plausível a existência de um ser inteligente, não natural, e que, conscientemente, por vontade própria - vontade, uma característica que observamos nos seres vivos - decidiu criar o universo. Isso não lhe soa um tanto infantil? O que dizer, então, do Deus amoroso, que nos ouve e nos julga?

- Não me interessa como meu pensamento lhe parece! - reclamou o bispo, elevando um pouco o tom de voz - No meu caso, o teísmo possui bases mais profundas, como a lógica. Apresentarei, agora, uma argumentação coerente em favor da existência de um criador do universo. Caberá a você apontar alguma inconsistência.

Alceu percebeu um tom desafiador na voz do bispo. Sentiu-se um pouco incomodado, uma vez que nunca encarava as discussões como disputas a vencer, e sim como oportunidades de compartilhar pensamentos e visões e até de rever os próprios posicionamentos. Bispo João, então, prosseguiu:

- Se algo eterno não existisse, o "nada" teria existido em algum momento. Mas é impossível que algo tenha surgido do “nada”, pois este estado é a ausência de qualquer coisa, inclusive de potencialidades. Logo, existe algo eterno. Este algo não pode existir desde sempre, pois infinito temporal passado não existe. Logo, ele é atemporal, isto é, sem tempo. A matéria é dependente do tempo, que é a sucessão de eventos ou estados. Para que a matéria fosse eterna, teria que ser independente do tempo. Segundo as teorias científicas, o tempo, o espaço e a matéria surgiram no Big Bang, ou seja, a matéria só existe no universo. Portanto, o algo atemporal também deve ser imaterial. Algum problema até aqui?

- Sim, há alguns problemas. - observou Alceu.

- Permita-me apresentar o raciocínio de um modo levemente diferente. - continuou o bispo - Existem coisas contingentes na natureza. Tais coisas devem sua existência a outras coisas. Se todas as coisas fossem assim, contingentes, então, em algum momento, não teria existido nada. Mas, se isso tivesse ocorrido, nada existiria, pois não haveria nada para trazer algo à existência. Portanto, se há coisas que existem, então, necessariamente, deve haver algo cuja existência não dependa de nenhuma outra coisa. Ainda vê problemas?

- Bispo João, quando fazemos suposições a respeito de conceitos que nossa limitada capacidade de percepção não nos permite apreender, corremos o risco de cair em simples jogos de palavras. Se o “nada” é a ausência de tudo, inclusive de potencialidades, também deve ser a ausência de tempo. Logo, não faria sentido falar em “nada” antes da existência de alguma coisa. Não é necessário pensar em termos de uma transição, do nada para o todo. Falar com tanta propriedade sobre um momento anterior ao universo, e ainda chamá-lo de “nada”, não faz muito sentido. Um universo independente de qualquer outra coisa não é mais absurdo do que um criador independente de qualquer outra coisa. E de onde o criador teria tirado a matéria do universo? Do nada? Pensemos o seguinte: o universo, provavelmente, é limitado, espacial e temporalmente. Podemos supor que seus limites sejam os limites da existência, não havendo nada além deles. Nem faria sentido falar em “além deles”, pois é provável que não haja um lado de fora. Por que se sentir forçado a aplicar a lei de causalidade, que é algo que observamos dentro do universo, isto é, dentro do que é natural, a algo que estaria além da natureza? Além disso, você supôs de modo muito fácil algo atemporal, independente do tempo, apenas para que esse algo não fosse eterno. À parte de tudo isso, podemos supor que o universo sempre tenha existido, talvez até de modo atemporal, como disse o bispo sobre o criador. O tempo estaria apenas dentro dele, como uma de suas dimensões. Ou imaginar um universo cíclico, que se renova periodicamente, e que nos permite observar apenas o ciclo atual. Podemos, ainda, estar inseridos em uma simulação muito bem feita. Se os seres de algum universo pudessem atingir a capacidade de criar simulações, o que parece bem possível quando observamos o ritmo acelerado do avanço tecnológico, então, em algum momento, teríamos infindáveis simulações. Neste cenário, por uma questão numérica, seriam maiores as chances de estarmos em uma dessas simulações, ao invés de no universo original. E se o universo tiver surgido a partir de uma estrutura impessoal que possui a propriedade de gerar todos os universos possíveis? Perceba que apenas apresentei suposições. Não há motivos, no entanto, para levar a hipótese de um criador para o universo mais a sério que essas ou qualquer outra que formulássemos. Não nos esqueçamos de que a noção da humanidade a respeito dos limites do universo ampliou-se ao longo do tempo. Os homens já pensaram que seu continente fosse todo o universo, depois pensaram o mesmo sobre o planeta. Não faz muito tempo, descobriram que existem outras galáxias. Não estou afirmando que os limites irão expandir-se ainda mais, mas podemos também supor que isso ocorrerá.

- Não compreendi sua objeção à atemporalidade.

- O conceito de atemporalidade, nos moldes que o bispo está propondo, é de difícil apreensão. Pode ser que nem exista tal coisa. Como pode um objeto atemporal relacionar-se com um objeto temporal? A passagem de tempo em um dos objetos não poderia ser usada para medir o tempo no outro objeto? Não se os tempos fossem dimensões internas de cada um e independentes entre si. Neste sentido, podemos encarar o tempo no universo como uma dimensão não muito diferente das espaciais. A relação entre dois momentos distintos seria muito parecida com a relação entre dois pontos do espaço: uma relação de distância. Devido à relatividade, seria mais correto, inclusive, falarmos em pontos-momentos. Assim como as dimensões espaciais teriam seus limites, a temporal também os teria. Além disso, se podemos supor um único criador para o universo, por que não supor múltiplos criadores, como uma espécie de comunidade de deuses? Ou uma hierarquia: o universo possui um criador, que possui um criador, até chegar a um criador no topo. Isso ainda seria um tipo de teísmo, mas é um bom modo de atentar para o fato de que postular um criador para o universo não encerra o problema. Sem contar que, seguindo essa lógica, podemos chegar a hipóteses um tanto absurdas e até meio pueris. Você pode até apelar para a "navalha de Ockham" e insistir que devemos assumir o menor número de entidades possível. Ora, nesse caso, o correto seria ficarmos com uma única entidade: o próprio universo. Afinal, um cenário com duas entidades, o universo e um criador, cuja origem é tão desconhecida quanto a do universo, é bem mais complexo. A variável "criador" é desnecessária e serve apenas para complicar o problema: explicar a origem do sistema criador-universo deve ser bem mais difícil do que explicar a origem do sistema universo, pois, no fim das contas, como procuro deixar claro, qualquer característica especial que você tentar atribuir ao criador poderá ser atribuída ao universo. Para não deixar de fora outras variantes do teísmo, devemos considerar também o seguinte: se já é difícil defender como certa a existência de um criador, é ainda mais difícil defender o mesmo quanto a um criador que nos ama, que ditou regras para que seguíssemos, que nos ouve, observa e julga, posto que este segundo tipo é bem mais específico, exigindo uma argumentação bem mais extensa e trabalhosa, e que, provavelmente, precisaria ainda da comprovação do primeiro tipo.

- Um criador amoroso não é mais absurdo que um criador qualquer. Não é pela quantidade de argumentos que se comprova um ou outro tipo de criador. Você não precisa provar as características de Deus para afirmar que ele existe.

- Para simplesmente afirmar, não. Mas para convencer alguém disso, precisa sim. Defender um criador amoroso, observador e juiz é bem mais difícil do que simplesmente defender a existência de algo eterno. Para tentar provar um Deus com tantas características, seria preciso demonstrar a presença de cada uma dessas características.

- Alceu, minha argumentação não se torna inválida apenas porque você não consegue apreender alguns conceitos.

- Não é isso, bispo. Não se trata de um problema com a minha capacidade cognitiva. A simples criação de conceitos não transforma em realidade aquilo que eles descrevem. A questão da refutabilidade de argumentos desse tipo é um tanto subjetiva. Você apresentou bons argumentos, mas uma argumentação muito boa não é suficiente para defender e influenciar práticas como se existisse um ser superior. Para isso, além de ser boa, precisaria ser incontestável. Em vários momentos, sinto que estamos falando de definições inatingíveis, sem uma ligação íntima com o real. Acho muito interessante esse tipo de discussão desafiadora e estimulante, capaz de proporcionar momentos prazerosos. Não vejo problemas em uma pessoa que aprecia entrar nessas discussões do lado do teísmo, e eu mesmo poderia debater a favor do teísmo e também achar interessante. Seria como trocar as peças pretas pelas brancas em uma partida de xadrez, ou vice-versa. Só não compreendo quando algumas das suposições começam a ser levadas muito a sério, como no caso de teístas que baseiam seu pensamento na lógica, porém se põem a defender algumas insanidades de fundamentalistas. Posso fazer suposições sobre o desconhecido durante uma discussão, mas nunca tomá-las por verdade ao interagir com a realidade, influenciar em decisões importantes ou avaliar uma postura possivelmente discriminatória. Quando vejo a realidade sofrer um impacto desferido pela suposta existência de um criador, penso que pode estar havendo um exagero. Ao afirmar-me como ateu cético, não intenciono desferir um impacto pelo lado oposto, abalando ainda mais a realidade, mas apenas esclarecer que não acho saudável conferir a simples suposições um peso tão grande. Você se diz racional, dá à razão o seu devido valor, mas sabe que existem pessoas, por diversos interesses, disseminando a ignorância, o obscurantismo, a intolerância e uma visão de mundo compatível com a da Idade Média. Torço para que os indivíduos mais racionais, independente de se denominarem teístas, ateus ou agnósticos, consigam convencer o restante da sociedade a abandonar a ignorância e sua consequência mais nefasta: a intolerância.

- Alceu, compreendo suas preocupações, mas não estou utilizando a lógica de modo irresponsável. Os argumentos que apresentei foram muito bem embasados. Veja, por exemplo, a questão do tempo infinito no passado. Se o tempo fosse infinito no passado, haveria uma quantidade infinita de dias antes de hoje. Então, hoje seria o fim do infinito. Mas infinito não tem fim. Se chegamos ao dia de hoje, então o passado não é infinito.

- Bispo João, concordo que é possível que o tempo não seja infinito no passado. Aliás, penso que não existe infinito real, mas apenas conceitual. “Infinito” é a palavra que utilizamos para nos referir a grandezas que não conseguimos apreender, do mesmo modo que empregamos a palavra “aleatório” para tratar de eventos cujas causas não são completamente conhecidas. Mas pretendo demonstrar que seus argumentos não estão tão embasados. Analisemos uma das hipóteses que apresentei: aquela que supõe que universo surgiu de uma estrutura impessoal que possui a propriedade de gerar todos os universos possíveis.

- Está supondo matéria sem tempo? Como isso seria possível? É um absurdo!

- O bispo acha um absurdo supor a existência de matéria sem tempo, devido a um conhecimento científico, mas acha normal um ser atemporal, imaterial e, ainda por cima, pessoal, isto é, dotado de características intelectuais semelhantes às humanas, como raciocínio, intenção, entre outras. Estranho... E quanto ao tempo sem matéria, que o bispo está assumindo como possível ao perguntar o que havia antes do universo? Mas o fato é que não estou supondo matéria sem tempo. Fui mal compreendido. A estrutura que supus é atemporal e imaterial, como o criador que você supõe. A diferença é que ela é impessoal: não possui intenção, não ama, não planeja. Sua principal propriedade seria a capacidade de gerar automaticamente todos os universos possíveis, mesmo que só haja um universo possível. Se você pode supor um criador inteligente e pessoal, posso tranquilamente supor tal entidade.

- Se essa estrutura atemporal e imaterial fosse impessoal, a criação de todos os universos possíveis deveria ter acontecido imediatamente à sua existência, ou seja, os universos criados existiriam desde sempre. - contestou o bispo - Mas nosso universo não existe desde sempre, como já concordamos. O criador precisa ser pessoal.

- “Imediatamente à sua existência” e “desde sempre” são conceitos temporais. Se a estrutura é atemporal, não existe desde sempre, pois é independente do tempo, isto é, não há “sempre” para ela. Os universos, portanto, foram gerados independentemente do tempo. Você fala como se a estrutura, caso fosse pessoal, pudesse planejar um momento para criar os universos, em contrapartida a “imediatamente à sua existência” ou “desde sempre”. Mas uma estrutura que planeja um momento é temporal, pois está desenvolvendo um processo decisório e lidando com o tempo, situando os universos em determinado ponto de uma sequência temporal externa a esses universos.

Bispo João reagiu:

- Em agentes automáticos, o efeito é provocado logo que eles existem. Se os universos são gerados independentemente do tempo, então são gerados todos juntos, já que não podem ter sido gerados um após o outro. A estrutura pessoal, por outro lado, não planejaria um momento para criar os universos, mas apenas decidiria sair da letargia, da inércia. Sei que parece estranho, mas imagino duas possibilidades que podem resolver o problema da interação entre objetos temporais e atemporais: na primeira, suponho que o criador torna-se temporal quando cria o universo; na segunda, suponho que ele continua atemporal e enxerga o universo de maneira simultânea ou panorâmica, ou seja, ele vê todos os eventos do passado, do presente e do futuro, como se observasse um painel com uma sequência fotográfica.

- Bispo, se vai mesmo supor a atemporalidade, esteja preparado para lidar com os problemas de um conceito tão alheio à nossa percepção. A palavra “atemporal”, do modo como você está propondo, não significa “existe desde sempre”, e sim “sem tempo”. Não é adequado falar em “logo que a estrutura existe”, pois, se ela é atemporal, então não vem à existência, não sofre transição, mas existe de modo independente do tempo. Se concordamos que o tempo só existe no universo, ou nos universos, então não há motivos para supor um tempo absoluto, acima de tudo. Os universos não são gerados todos juntos, isto é, ao mesmo tempo, e nem um após o outro, pois estas expressões pressupõem a existência de tempo fora dos universos. E a estrutura pessoal? Se ela pode decidir passar de um estado de letargia e inércia para um estado de ação, então está sujeita a uma transição de estados, o que implica em sujeição ao tempo.

- Deus criou o tempo em dado momento. Não estou pressupondo que o tempo já existia. O universo é uma consequência lógica, e não cronológica, do criador. Concordo que é estranho, mas é uma necessidade.

- Você disse que não está pressupondo que o tempo já existia, mas afirmou que Deus criou o tempo em dado momento. Que história é essa? Só existem momentos se houver tempo. O bispo está afastando-se cada vez mais de um raciocínio realmente lógico, além de estar contradizendo-se. Um objeto atemporal não sofreu transição da inexistência para a existência porque não está sujeito ao tempo. Mas ele não existe desde sempre, isto é, não é eterno, justamente porque não está sujeito ao tempo. Se não há tempo, não há “sempre”. Portanto, a estrutura que supus não existe eternamente ou desde sempre, pois é atemporal. Ela simplesmente existe, independentemente do tempo. E, como consequência lógica de sua existência, e não cronológica ou temporal, todos os universos possíveis existem. Você disse o mesmo sobre o seu criador: que o universo é uma consequência lógica dele. Estou apenas parafraseando sua hipótese, para evidenciar alguns absurdos e mostrar que a pessoalidade é desnecessária. Alguns dos universos gerados podem ter dimensões semelhantes à nossa dimensão temporal. A estrutura geradora, no entanto, não estaria sujeita a nenhum desses tempos, pois é atemporal. Não há como existir um momento da criação, se não houver um tempo no qual localizar esse momento.

- Alceu, como poderia a estrutura atemporal ter gerado seu efeito há apenas quatorze bilhões de anos atrás e não mais? A minha resposta é: há quatorze bilhões de anos, o criador decidiu sair do estado de imobilidade e praticar suas potencialidades. Deus não ficou esperando. Ele existia imutável, inativo, até que decidiu criar.

- Bispo, por que continua falando como se existisse um tempo que subjuga até mesmo o criador pessoal e atemporal que você supõe? Ele é ou não é atemporal? Os quatorze bilhões de anos só existem dentro do universo. Trata-se de uma contagem entre um momento próximo ao início do universo, mas dentro dele, e o momento presente. Se o criador é atemporal e não existe um tempo absoluto e infinito, como ele pôde escolher um momento para a criação do universo? E se ele mudou de estado, então está sujeito ao tempo.

- E se Deus não tiver mudado de estado? E se ele existir de modo atemporal e tiver apenas determinado o momento da criação?

- Determinado o momento? Em que sequência temporal estaria esse momento? Em um tempo absoluto? Vamos supor, então, que exista um tempo absoluto, além do universo, no qual seja possível determinar o tal momento. Um objeto atemporal deve ser estático, pois não pode sofrer transformação alguma. Portanto, um possível criador atemporal teria que ter o referido momento gravado, programado, registrado, imóvel. Logo, poderia ser impessoal. Nenhuma pessoalidade seria necessária.

- Alceu, o que pretende com essa contra-argumentação?

- Pretendo mostrar que é desnecessário e absurdo que o criador seja pessoal, isto é, que ele tenha características humanas, como as capacidades de pensar, decidir e agir. Uma estrutura impessoal com a propriedade de gerar todos os universos possíveis teria dado conta do recado. E creio que o bispo já tenha percebido isso. Agora, pretendo demonstrar que a existência do criador é desnecessária. Aliás, o que quero mesmo mostrar ao bispo é que não há e dificilmente haverá motivos convincentes para tomar a hipótese da existência de um criador como verdade absoluta.

(continua...)